COMO O IRÃ FORTALECE O TALEBAN?

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Hoje nós vamos discutir um assunto bastante sério, sangrento, cruel, brutal, mas também interessante do ponto de vista estratégico. Entendam que não se trata de aprovar ou desaprovar conflitos e mortes, eu sempre desaprovo sangue jorrando. Mas a minha reprovação não impede a continuidade dos conflitos ao redor do planeta, especialmente no Oriente Médio. É nosso dever, portanto, analisar os fatos de uma forma pragmática.

Ao menos cinquenta pessoas foram mortas em um ataque relâmpago, uma operação cirúrgica do Talibã afegão ao aeroporto de Kandahar, no sul do país. Este aeroporto era utilizado por operações americanas e por algumas forças operacionais da OTAN. Desde 21 de outubro de 2014, o controle do aeroporto e das operações é exclusivamente dos Estados Unidos (Link). Até então, o Afeganistão vive situações similares desde 2001, quando as intervenções ocidentais arrasaram a já precária situação político-social do país. O Taleban flerta diretamente com as vertentes mais perversas do sunismo, e realmente instaurou um regime tirânico que perpetrava o terror, além de permitir campos de treinamento diversos para outros grupos paramilitares e supranacionais. Classificado como um Estado Fraco e um Santuário, ou seja, um país onde a economia quebrou e que vivia em um regime disperso, incapaz de deter soberania e reconhecimento internacionais, tornou-se um prato cheio para proliferação de terroristas. Automaticamente, um alvo após o 11/9.

Por diversas vezes neste blog comentei as razões, motivos e capacidades do Estado Islâmico. Fato é que do ponto de vista sectário, os sunitas não são iguais. O Califado Islâmico (representado pelo Estado Islâmico) deveria unificar os sunitas ao redor de sua esfera de governo, tornando vivo um sonho imperial baseado em uma teocracia, aos melhores modos medievais. Já o Taleban, não busca nada além do que o governo local do Afeganistão e a implementação de sua versão da Sharia (ou Xariá), de acordo com o entendimento do Islã que mais lhe convém. Os setores de inteligência de vários Estados já vincularam células fiéis ao EI operando no sul do Afeganistão. Agora, com o cenário desenhado, vamos aos significados.

O XADREZ AFEGÃO

Como venho destacando há algum tempo neste site, o Irã e a Arábia Saudita são os agentes regionais mais atuantes e mais importantes na influência político-militar do Oriente Médio. O caso afegão evidencia esse destaque. Vejam a localização do Afeganistão no mapa.

Mapa

É um território crucial para consolidação de qualquer poderio razoável por parte do Irã, além de um polo incrível na estratégia que envolve Oriente Médio e Ásia. Estabilidade no Afeganistão, melhora automaticamente toda política regional.

O Irã combate o EI na Síria como aliado de Assad e Putin, além de consolidar seu poder com intervenções práticas de sua Guarda Revolucionária no Iraque e também com o financiamento de milícias Curdas naquele território. É absolutamente neste ponto em que o sectarismo é abandonado para consolidação de uma política regional de segurança. Não podemos pensar em 100% das relações regionais como religiosas, antes, elas são estratégicas. Seguindo a mesma lógica, o Irã fortalece o Taleban afegão para que este combata as células regionais do EI, ao mesmo tempo em que opera várias frentes, ajuda a concentrar seus esforços e suas forças próprias para evitar que surjam e se consolidem as células do EI no próprio Irã.

Portanto, o Irã fortalecerá o Taleban em detrimento do EI. É essa a disputa em um tabuleiro de várias frentes. Mas o que a Arábia Saudita tem a ver com isso? Os sauditas têm interesse em um problema regional ao Irã, e deve enviar recursos às células do EI onde puderem. Um conflito direto entre as potências é travado no Iêmen, onde os Houthis xiitas são financiados pelo Irã e os membros do governo sunita e do exército formal recebem recursos sauditas. Quando eu digo recursos sauditas, eu gostaria de lembrar que são, em sua maioria, equipamentos oriundos dos Estados Unidos.

O Senado americano já aprovou um novo envio de 1.29 bilhões de dólares em armas aos sauditas, o que deve deteriorar ainda mais a situação regional.

Voltando ao Afeganistão, a tendência é que o Taleban se fortaleça cada vez mais, mas que os conflitos se agravem, e que a OTAN e as forças de coalizão ocidentais, encontrem-se num papel de coadjuvante para um conflito ainda maior.

Gostaria também de lembrar que todo esse quadro é fruto dos seguintes elementos:

* Intervenções militares dos Estados Unidos e OTAN a partir de 2001 no Afeganistão

* Intervenção direta no Iraque em 2003

– Ambos sem a consolidação ou construção de um Estado Nação soberano, com políticas e economias próprias. Procurou-se apenas destruir estes Estados e acabaram por se enfraquecer ainda mais. A queda do Iraque significou um reforço automático ao Irã.

* Boicote e armamento aos rebeldes Sírios

– A tentativa ocidental de derrubar Assad fracassou e tornou a região refém do Estado Islâmico, que só encontrou espaço para crescer pois não receberia ataques das forças de Assad, que mantiveram a Síria em ordem econômico-social durante décadas.

* EUA e Ocidente com vistas grossas aos abusos do regime saudita

– A Arábia Saudita vive sob uma das mais sangrentas ditaduras do planeta. Por que nada é feito ou dito a respeito? Os americanos inclusive indicaram os sauditas para o painel de direitos humanos da ONU, cômico, se não fosse tão trágico.

Enfim, quanto mais intervenções ocorrem na região, maior o número de elementos que precisam ser levados em conta para que se entenda a arquitetura do poder em andamento.

ELEIÇÕES VENEZUELANAS 2015 – Análise

A Venezuela acabou de passar por eleições regionais, para que haja nova composição parlamentar. Como ocorre por lá há muitos anos e há mais de uma década, trata-se de um processo plebiscitário. Nada mais do que a aprovação ou reprovação da administração vigente. Mas para entender os ainda prematuros resultados, precisamos compreender no que consiste o projeto atual de Maduro, herdeiro direto do chavismo e um continuador, ainda que bem desajeitado e cheio de improvisos, da retórica de Hugo Chávez.

O desenho chavista consistia em um plano relativamente simples e teoricamente viável. Como se sabe, a Venezuela é um enorme produtor de petróleo, cujo uso é ainda matriz energética da maioria dos Estados no planeta. Ou seja, os dólares viriam fáceis da venda de barris e bancariam o desenvolvimento social do país. Esse mote não foi novidade do chavismo, foi algo que acompanhou a Venezuela por toda história. A dependência do petróleo é tão fatual que o país precisa importar praticamente tudo, quadro que só fez se agravar durante o período Chávez. A ideia complementar seria utilizar os recursos para custear uma redistribuição de renda mais igualitária e viabilizar uma equabilidade social, algo do qual a América Latina como um todo carece. Logo, estamos falando de um Estado bastante grande e intervencionista, tanto na economia quanto nas políticas sociais.

Observando este plano de forma pragmática, ele faz todo o sentido e deveria ser o desejo de todos, ou da maioria dos que honestamente buscam utilizar a política como arma de melhoria das condições de vida de uma população. Mas olhando a prática, a mistura de um populismo sofístico com um descontrole personalista enviesado para uma ditadura, acabou com as chances de sustentabilidade deste ideal. Como sempre, boas intenções acabam quando a realidade do poder assume e torna os líderes ambiciosos de forma danosa. Chávez teve apoio e condições para se consolidar como um grande estadista, mas acabou sendo somente uma sombra de tudo o que imaginava ser de fato.

Entre 1999 e 2013, período em que Chávez governou, ganhos ocorreram de fato. A pobreza reduziu-se substancialmente e as elites do país se incomodaram a ponto de boicotar pleitos eleitorais seguidos (o que somente serviu para fortalecer os partidos de esquerda e a consolidação da coalizão do PSUV – Partido Socialista Unido da Venezuela, o qual Chávez capitaneava).

O gráfico abaixo demonstra inclusive que durante o período de governo Chávez o barril de petróleo alcançou excelentes cotações, que deveriam resultar em ganhos ainda maiores ao povo.

Preço barril petróleo
Fonte: http://www.indexmundi.com/

Mas a realidade foi outra. Os ganhos não se provaram sustentáveis, não houve uma alteração na matriz de composição do PIB. Ao invés de aproveitar a situação favorável do preço do barril de petróleo para realizar a construção de um parque industrial independente, grande parte dos recursos acabou destinado à militarização, às barganhas governamentais, suborno, corrupção e também aos financiamentos de alianças com Cuba, Rússia e Irã.

É uma tônica da história venezuelana. Crises cíclicas e profundas, seja por fatores externos que culminam com as baixas no preço do petróleo, seja com as políticas internas, sempre turbulentas, que arrastam o povo à miséia. Após a morte de Chávez, Maduro já não consegue disfarçar o tom ditatorial do aparelhamento do governo, que prende opositores, mata estudantes e fecha diversos veículos de mídia.

A crise econômica abalou tanto os venezuelanos, que itens básicos da cesta básica estão faltando, bem como produtos de higiene. O país se fecha mais a cada dia e todas as formas de abastecimento correm perigo. Logo, o problema social tornou-se também um problema de segurança coletiva naquele Estado. Os indicadores divulgados pelo governo não são confiáveis e se baseiam mais em ufanismo do que em realidade. Dessa forma, estima-se hiperinflação, desabastecimento e um quadro temerário de caos social.

Também precisamos eliminar a idéia de que Hugo Chávez era unanimidade na Venezuela. Suas eleições e plebiscitos sempre foram ganhos com pouco mais de 50 – 52% dos votos válidos, o que já demonstrava um Estado dividido.

ANÁLISE PARTIDÁRIA

O resultado (ainda não é o final) das eleições legislativas de 2015 na Venezuela colocam:

MUD (Mesa de la Unidad Democrática) – 100 cadeiras

PSUV (Partido Socialista Unido de Venezuela) – 46 cadeiras

Outros – 22 cadeiras

Fonte: El País .com
Fonte: El País .com

MUD representa a coalizão oposta a Maduro. Ou seja, uma dura derrota imposta ao regime herdeiro de Chávez, e a representação de que o MUD superou as expectativas mais otimistas. Com o total de cadeiras conquistadas, ele pode agir firmemente sobre os estatutos, leis e poderes delegados aos burocratas governamentais e órgãos de Estado, dependendo somente de si para derrubar o que considera injusto (a começar pela prisão de opositores).

Maduro persiste como presidente venezuelano, mas encontrará agora uma base contrária, oposta aos seus ideais e planos, o que deve gerar turbulência política, porém um cenário mais saudável, visto que deve barrar as tentativas ditatoriais que rumavam o governo na última década. “Poxa, mas se tem eleição, como é ditadura?” para essa pergunta que alguns cientistas políticos desesperados vêm utilizando para embasar um sofisma barato, lembro que no Brasil os militares permitiam eleições. Estes mesmos cientistas negariam a ditadura brasileira? Ora, a democracia é algo muito maior do que o voto, é um complexo mecanismo de freios e contrapesos, é uma construção histórica e de uma sociedade que decide por fragmentar o poder em instituições cada vez mais fortes quanto menos personalistas sejam. Quando o poder de um Estado emana de um cidadão, temos ali uma ditadura, ainda que se vista de democracia.

PARADOXOS HISTÓRICOS

Como Chávez não fundou a Venezuela, gostaria de trazer a lembrança de alguns fatos importantes.

Pacto de Punto Fijo – Foi uma aliança política firmada em 1958 onde os principais partidos políticos venezuelanos se comprometiam com a democracia e com o respeito aos resultados eleitorais. Claro que houve uma perpetuação destes mesmos partidos, que longe de representar o anseio popular, trocavam favores e deveres entre si, gerando crescente insatisfação social.

Até que em 1992, Hugo Chávez liderou uma tentativa de golpe militar que fracassou estrondosamente, mas que o colocou em evidência, sendo percebido como um herói pela população que só via empobrecer seu cotidiano. Mesmo preso, foi capaz de aquecer uma continuidade de seu movimento inicial.

Concomitantemente, no ano seguinte (1993), Carlos Pérez sofreu impeachment e foi afastado desta velha política, colocando fim ao “Puntofijismo”. Foi sucedido por Rafael Caldera Rodriguez, que por sua vez, foi sucedido por Hugo Chávez (eleito em 1998).

A Venezuela hoje, infelizmente, retorna a um quadro turbulento, parecido com o que Rafael Caldera encontrou em 1993. As elites persistem, agora compostas também por membros do atual regime governamental, e ainda uma sociedade fragmentada e dividida.

Resta saber qual será a reação de fato de Nicolás Maduro. Sua saída da presidência é quase certa, vamos ver se haverá o devido respeito às tentativas de retomada de uma democracia ou se valerá o peso tecnocrático de sua burocracia ditatorial, que sabotaria o processo e perpetuaria (ainda que pela força) o projeto chavista.

COMO ASSAD SUPEROU O OCIDENTE ?

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O Oriente Médio é tema corriqueiro deste site. Além de ser uma região muito importante nos âmbitos geográfico e energético, é uma espécie de laboratório avançado de política, onde podemos acompanhar o passado distante das alianças e do “concerto” entre Estados e projetar um futuro para solução de conflitos. É nesse paradoxo de invocação passada e horizonte futuro que a situação na Síria ganhou um novo contorno durante este mês de outubro.

A entrada da Rússia de Putin no conflito foi algo até certo ponto esperado. Faz parte de uma trajetória histórica que os russos tenham presença no Oriente Médio, mas a retórica original era a de atacar o Estado Islâmico. Muitos vibraram com a ideia de que o EI seria varrido do mapa sírio pela poderosa força aérea russa. Mas há um pano de fundo amplo e complexo que precisa ser levado em consideração antes de chegar ao EI.

A primeira premissa que guia Rússia, Irã, China, Síria e alguns outros Estados no Sistema Internacional é o de não-intervenção em assuntos domésticos. Ou seja, cada governo cuida de sua população e de seus “assuntos internos” como bem entender. É a plena soberania da vontade governamental que regula as ações. Claro que isso abre margem à uma série de abusos contra os Direitos Humanos mais básicos, além de massacres diversos contra minorias / adversários.

Por que isso é importante no caso de Assad? França, Estados Unidos, Reino Unido e Canadá iniciaram operações para armar os rebeldes e grupos opositores de Assad em 2012 (efetivamente em 2013 com grande volume), auxiliando a desestabilizar ainda mais o país. A projeção é que em poucos meses, um novo regime seria decretado, algo mais “democrático (?)” se é que alguém ainda pode falar em Primavera Árabe e Democracia no Oriente Médio com alguma fundamentação razoável…

Enfim, o Estado Islâmico decretou seu pretenso Califado em 2014 apenas, ou seja, não se trata do dilema ovo x galinha. A interferência do Ocidente na Síria auxiliou na formação do EI e na consolidação de seu poder também em um Iraque já enfraquecido pela ausência de Hussein e imerso em um caos étnico-social.  Uma boa parte da manutenção de Assad no poder passou por não combater com “vontade” o EI. Enquanto os rebeldes e os diversos grupos opositores se digladiavam e dividiam território, ficavam preocupados com o avanço do EI e das forças de Assad.

Ou seja, o EI foi auxiliar de Assad nesse sentido. Isso é verdade quando observamos o mapa dos primeiros bombardeios russos (mapa feito pelo Levantine Group).

Levantine Group MAP

Os russos bombardearam os rebeldes opositores de Assad, e não as posições do EI. A estratégia parece ser:

  • Consolidar Assad como líder Sírio;
  • Desencorajar opositores e rebeldes;
  • Assegurar que o Irã mantenha suas relações com o regime sírio e, consequentemente, o financiamento do Hezbollah e das milícias xiitas por toda região;
  • Garantir aos russos uma contrapartida em influência bastante importante na região;
  • Ao mesmo tempo, assegurar que o Ocidente se afaste à força, devido a escolha errada de estratégia e a desmoralização sofrida;

O timing de Putin foi perfeito. O Ocidente hoje se resignou e já aceita a ideia de voltar a negociar com Assad e aceitá-lo como líder Sírio reconhecido. Essa é uma derrota moral importante, especialmente para França, uma ex-metrópole cuja influência político-econômica sempre foi muito forte. Quem emergirá com reconhecimento? Putin. Prova disso é que no dia 20/10/2015, de surpresa, Assad foi até Moscou em visita oficial para agradecer os esforços russos (link). Visitas de Estado, neste nível e nessa situação significam alinhamento total. Assad deu as costas ao Ocidente de vez.

Com o fim das insurgências e dos rebeldes, Assad terá um plano para o EI. Até lá, o foco primário é se consolidar como mandatário oficial da Síria e agir com o peso soberano do Estado sob seus opositores. Já os rebeldes, que compraram a ilusão do poder, poderão esperar dias muito difíceis nos próximos anos.

Enquanto tudo isso acontece, Estados Unidos já não tem a mesma empolgação para manter mais um front de batalha, Canadá acaba de eleger um governo Liberal que deve reduzir o suporte às operações em território estrangeiro, França e Reino Unido vivem seus próprios problemas de crise econômica e humanitária com a chegada de refugiados… o planejamento foi feito de forma equivocada, só fortaleceu os que não poderia.

Muitos vêem uma nova guerra fria em andamento, como no cartoon abaixo deste link:

Syria The good old Cold War game

Faria todo sentido se os EUA vivessem um momento melhor. Hoje a responsabilidade na Ásia parece fazer muito mais apelo na política externa americana do que o Oriente Médio. Esse vácuo de poder permitiu Putin agir livremente e assumir um lugar extremamente estratégico no jogo de poder da política internacional.

Essa é a imagem mais exata:

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FRONTEIRAS EUROPEIAS – UMA DENSIDADE INDEFINIDA

Todos acompanhamos com aflição a saga das dezenas ou centenas de milhares de refugiados que buscam abrigo na União Européia diariamente nos últimos meses. Não é um fenômenos iniciado pela icônica foto do menino sírio (Alan Kurdi) que se afogou em uma praia turca,  mas graças à imagem que chocou o mundo, muitas forças políticas se mobilizaram devido a pressão exercida pela opinião pública. Não houve quem não se emocionasse ao imaginar uma pequena vida, iniciada há poucos anos, tendo que lidar com o desconhecido, o medo, a fuga, a ausência de segurança, de um colo, de uma abrigo, de algo quente e estável. Enfrentar o mundo gelado e cruel dessa forma foi demais para o pequeno Kurdi.

Ao mesmo tempo em que cidadãos e governos de toda Europa dão mostras de um arrefecimento em relação à repulsão aos imigrantes,  problemas práticos surgem de forma a canalizar as discussões em políticas públicas. Quais os dilemas de segurança e riscos que o grande tráfego de pessoas impõe à União Européia? Ninguém discute o papel proeminente da Europa como ex metrópole de várias colônias na África e no Oriente Médio e a consequente influência que ainda exerce nas esferas política e econômica; porém a prática da integração regional pede avanços e tolerância combinadas à turbulência externa.

Um projeto real como o da União Européia precisa conciliar as questões econômicas com as políticas. Mas a UE é composta de diversas fronteiras mutantes:

  • A União Européia em si
  • A Zona do Euro (nem todo Estado que compõe a União Européia aderiu ao Euro)
  • O Acordo de Schengen para livre circulação.

Nem todo Estado que aderiu a um, aderiu a todos.

A conciliação dos interesses é então problemática. Especialmente quanto ao Acordo de Schengen.

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Os Estados não vislumbravam diretamente um problema como 200.000 refugiados por exemplo. E não se pode admitir que pessoas recebam tratamento diferente perante à lei local. Ou seja, os direitos dos asilados precisam ser compatíveis com os de cidadãos regulares (claro que na prática isso é impossível).

O mercado europeu vive uma crise de estagnação, ou seja, não há uma situação favorável ao acolhimento de mão de obra. No entanto, a imigração possui diversos fatores positivos, pois além da diversidade cultural, soluções tecnológicas e práticas podem advir do esforço conjunto. Guga Chacra, um dos melhores correspondentes / analistas de Oriente Médio disponíveis na mídia hoje fez uma excelente argumentação aqui.

O cenário europeu hoje se completa com a ascensão de partidos de direita-nacionalistas em vários países da região, cujo significado imediato é o privilégio do cidadão tradicional e nacional sobre qualquer outro estrangeiro. Esse é um problema que se destaca quando a economia não caminha bem. Apesar de pequena melhora, a estagnação na Europa é realidade e a presença destes partidos também.

schengen_asylum_routesPelas rotas nós podemos ter a ideia do volume de pessoas que estamos discutindo aqui.

A esperança reside na democracia e no pluralismo ocidentais, que podem realizar uma lição de cidadania através de organizações civis ou até das supranacionais e ONGs. Hoje a soberania é compartilhada e muito mais relativizada do que era antes, e sociedades como a alemã, islandesa, e francesa, podem sim ditar tendências e exemplos no acolhimento destes seres humanos.

A recepção destes refugiados com dignidade e educação pode favorecer inclusive a melhoria da imagem eurocêntrica arrogante que predomina nas ex-colônias e que é uma motivadora de diversos ataques e atentados. O terrorismo pode se enfraquecer com um tratamento digno à população refugiada. Trata-se então de uma excelente oportunidade de praticar os truísmos universais que o Ocidente tanto preconiza.

A melhor estratégia de luta contra o Estado Islâmico talvez seja realmente o esvaziamento da região somada à uma visão mais honesta do multiculturalismo europeu.

Trata-se de um momento crucial na humanidade. Ou demonstramos virtude, ou afundamos de vez.

A ESTRATÉGIA DO IMPROVISO CONTRA O E.I. – Fracasso Monumental

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Após muitas semanas sem postar eu vou atualizar o panorama do conflito principal hoje no Oriente Médio. Estado Islâmico contra o mundo. Mas que mundo?

Desde o último texto, a Turquia aliou-se à coalizão americana para os bombardeios e operações contra o Estado Islâmico e suas lideranças. Fato é que os turcos são importantes para conjugação das equações regionais de poder, sendo o Estado fundamental para o equilíbrio fronteiriço e um dos que melhor equilibram qualidades para negociações entre Oriente e Ocidente (quase que uma vocação geográfica desde os Otomanos).

No entanto, devemos entender o contexto mais amplo de interesses resolvidos. Os diferentes partidos Curdos no Iraque e na Síria estavam recebendo armamentos por parte de Estados Unidos, alguns Estados europeus e do Irã. A Turquia, ao adentrar as fronteiras do conflito, traz para si soberania automática sobre a fronteira Síria, combatendo não só o Estado Islâmico como as tribos Curdas que representam desde muito um problema sério de segurança.

Estes temas já foram abordados nos posts anteriores.

Fato segundo é que os Estados Unidos contavam com os Curdos desde o início da campanha, e os soldados foram fundamentais na manutenção de posições importantes e retomadas na Síria e no Iraque. Mal a Turquia adentrou o conflito, já bombardeou importantes posições sírias por considerar os curdos terroristas. Logo, o rótulo fundamental que norteia as relações tornou-se ainda mais dúbio e abstrato. Agir dessa forma coloca em cheque a posição americana, que parece agir por improviso nesse conflito:

  • Ataques aéreos demasiadamente dispendiosos;

  • Abalo na opinião pública que cada vez mais se divide quanto ao apoio às ações militares no Oriente Médio;

  • Como consequência do tempo de existência, o Estado Islâmico parece já vigorar entre os cálculos de todos os Estados. Ou seja, legitimar-se-á à fórceps;

  • A estratégia de combate direto parece não surtir efeito enquanto o pretenso Califado se abastecer de dinheiro que surge no contrabando petrolífero e das drogas; Inclusive a Turquia adquiriu parte deste contrabando petrolífero até aquele atentado infeliz que a colocou do outro lado do conflito.

A Turquia operou um pragmatismo bem realpolitik, enquanto o mundo pareceu ter romantizado o conflito à distância.

A verdade é que a região passa por uma reconfiguração e uma nova polarização surgirá, ao que tudo indica, nos próximos anos. Nesse novo desenho, o Estado Islâmico terá posição proeminente em relação à estabilidade fronteiriça.

Infelizmente o Ocidente acreditou em “primaveras árabes” na busca por democracia e valores que não condizem com as tradições daquelas sociedades. A tentativa que corre desde a época colonial de impor um amálgama entre tradição local e pensamento ocidental fracassou tremendamente, o Estado Islâmico é só mais um produto de algo que se arrasta há quase um século.

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A tendência é de aprofundamento da crise. A retirada das sanções ao Irã e o acordo com o p5+1 vai equilibrar melhor o quadro político da região. Algo parecido com o Concerto Europeu deverá surgir deste caos.

O EI é resultado de equação complexa como a figura abaixo demonstra. Ele não desaparecerá tão facilmente, inclusive alguns questionam se ele DEVE desaparecer pois já vislumbram quem tomaria esse lugar…

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Trataremos a seguir das razões coloniais que levaram ao quadro. Terrorismo existe, mas pode ser visto de várias formas e permanece até hoje sem uma definição aceitável…

O PRESENTE RUSSO NO QUATRO DE JULHO DOS ESTADOS UNIDOS

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Quatro de julho é A data para os Estados Unidos. Celebram sua independência, conquistada em 1776. Feriado mais importante do calendário deles e um acontecimento e tanto por lá.

A SAUDAÇÃO

Nesse 04/07/2015, Putin resolveu presentear os americanos com uma visita in loco. Dois bombardeiros russos da classe Tu-95 “Urso” estavam a apenas 40 milhas da costa californiana quando foram interceptados por F-15 americanos. Nesse instante, utilizaram o canal emergencial de rádio para dizer:

Good morning, American pilots. We are here to greet you on your Fourth of July Independence Day.” (“Bom dia pilotos americanos. Nós estamos aqui para cumprimentá-los no seu Quatro de Julho, Dia da Independência”)

O agravante é que os Tu-95 possuem capacidade de carregar artefatos nucleares.

O SIGNIFICADO

Essa não é a primeira vez que esse fato acontece. Em 2012 algo similar ocorreu no Quatro de Julho. Além do mais, são constantes as interceptações na região do Alasca.

Seria uma ameaça direta? Não. A Rússia não tem condições práticas de iniciar um conflito com os Estados Unidos e nem interesse em tal cenário. Uma guerra dessa proporção seria suficiente para arrastar o mundo a um cataclismo sem precedentes, já que não seria uma guerra localizada. Além do mais, vale ressaltar que os russos não invadiram o espaço aéreo americano.

Mas se não é uma ameaça, do que se trata?

Trata-se de uma reafirmação de posição russa. Ela possui 2 motivos principais:

1) A expansão da OTAN rumo às suas fronteiras

* Em 2004 a OTAN incluiu: Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia – todos antigos membros ou da União Soviética ou do Pacto de Varsóvia. Ou seja, antigas “áreas de influência” do centro de poder (Rússia) em si.

* O fator Ucrânia. Em dezembro de 2014 o parlamento ucraniano (já em meio à crise de secessão de territórios para Rússia – anexação da Crimeia) aprovou por 303 a favor e 8 contra a retirada do status de “país não alinhado”, o que permitiria aos ucranianos formalizar adesão à OTAN. Claro que o posicionamento russo foi ameaçador, enfatizado por Sergei Lavrov (min das Relações Exteriores russo), que considerou essa aprovação uma ameaça direta à soberania de Moscou.

2) A Multipolarização

* O mundo não é o mesmo desde a dissolução da URSS. Não é preciso nem dizer o quanto China e Índia fazem parte dos cálculos estratégicos dos atores globais. Hoje o poder é dividido entre muitos Estados e não é mais possível fugir à interdependência dos recursos globais em matrizes energéticas, agentes financeiros, setores para e supraestatais e militares. Neste cálculo complexo, alguns analistas e setores de segurança não consideram mais os russos uma prioridade de segurança, mas sim uma ameaça no mesmo nível de outras.

Claro que aos russos o status de constante ameaça e agente principal garante um “prestígio do medo”. Toda negociação e toda questão na Eurásia e no Leste deveria passar por seu aval e/ou observação. Quando outros Estados se destacam, é preciso reafirmar sua posição e relevância. No atual cenário, esse “FELIZ QUATRO DE JULHO” foi oportuno, especialmente por ocorrer antes do telefonema oficial de Putin à Obama.

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MENSAGEM FINAL

A Rússia demanda atenção e reafirma sua importância no cenário internacional. A atual corrida armamentista na Ásia e a expansão chinesa, especialmente no Mar do Sul, servem de indicativos para uma multipolaridade daquela região. Rússia, India, China, Japão, todos esses possuem conflitos históricos entre si, e o Japão especialmente, já entende não poder contar com a proteção e garantia integrais dos EUA. Daqui em diante, as disputas regionais se acirrarão.

Em meio a esse turbilhão, a Rússia entende ser maior e mais poderosa. Deixa claro que a disputa dela é com os EUA. Até porque possui vínculos importantes em segurança e fornecimento de armas à Índia e vínculos políticos com os chineses.

Ou seja, Rússia trata de PERCEPÇÕES, a melhor moda de Robert Jervis.

A VERDADE

Fato é que a visão russa parece ser otimista em demasia. Com as sanções e as tensões na fronteira europeia, sua vocação de potência global está sim abalada. Seus recursos não são os mesmos e, apesar da enormidade de seu arsenal, não poderia sustentar um conflito de amplitude por muito tempo. Hoje os chineses são mais preparados e, gostando ou não, Putin precisa entender o cenário que encara.

Os EUA também, apesar de possuírem um poder militar bem mais amplo do que todos os outros Estados do globo, estão seriamente desgastados internamente. Sua opinião pública não aceitaria outro conflito de larga escala sem motivação considerada de união. Ou seja, a menos que os russos ataquem de forma direta os EUA, não conseguirão um conflito. E como já vimos, nada há que indique essa chance.

A verdade é que temos um dilema de segurança contínuo, onde os russos insistem em tentar reafirmar sua posição perante o sistema internacional. São sim relevantes e, de fato, importantes para o equilíbrio global, mas não são decisivos.

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FINALMENTE UM ACORDO SOBRE O IRÃ – II – SOCIEDADE CIVIL E PERCEPÇÕES

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Vou tentar trazer um pouco da sociedade iraniana em suas características mais marcantes. Importante porque o Irã é uma sociedade bem distinta da idéia geral que fazemos dela. Imaginamos muçulmanos xiitas por todos os lados com fervores religiosos e cegos seguidores dos Aiatolás que os governam. Ledo engano. Trata-se de uma sociedade absolutamente descolada de seu centro de poder, com vida própria.

O principal relato em língua portuguesa, e, na minha humilde opinião, o mais justo e sensato é o de Samy Adghirni, que foi correspondente da Folha em Teerã e fez um relato cujo conteúdo é excepcionalmente gostoso de ler. Foi lançado aqui pela editora Contexto, na também excelente coleção “Povos e Civilizações”. Possui preço justo e linguagem ao alcance de todos. Não há desculpas para nutrir uma visão preconceituosa.

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Destaco sempre o primeiro capítulo desta obra, chamado “QUEM SÃO OS IRANIANOS?” onde o autor coloca detalhes culturais em síntese, muito importantes para compreensão dessa fragmentação entre cultura x sociedade x governo e poder. Destaco alguns pontos (grifos meus):

Os iranianos, principalmente os da etnia persa dominante, cultivam a certeza de pertencer a uma das mais antigas e gloriosas civilizações. Alimentam com orgulho a memória de um povo que dominou boa parte do mundo graças a sucessivos impérios e cuja ciência um dia iluminou a humanidade. A grandeza iraniana compõe boa parte daquilo que Carl Jung chamava de ‘inconsciente coletivo’. Crianças crescem ouvindo histórias sobre o papel central de seu país na história do mundo. Na literatura, alguns clássicos têm como narrativa as conquistas persas. Quase todos os líderes nacionais ao longo da história projetaram algum de tipo de hegemonia enraizada na ideia de um povo nobre de excepcional destino. Há muitos iranianos ateus ou alheios à religião, mas são raros os que não são ufanistas” (p.09).

Há muitos iranianos ateus? E a nossa imagem daquelas multidões com turbantes? Já por “alheios à religião” eu entendo os nossos famosos “não praticantes”. Ou seja, trata-se apenas de uma sociedade, como qualquer outra, onde usos e costumes convivem, se contradizem e se espelham. Ainda nessa introdução o autor nos ensina que:

De todo modo, esse triunfalismo ecoa facilmente num país onde o fervor nacionalista pode soar ora ingênuo, ora arrogante aos ouvidos de um visitante estrangeiro. Iranianos, por exemplo, reivindicam paternidade sobre algumas das principais invenções da humanidade: vinho, sapato, xadrez, sorvete, refrigeração de ar, sistema postal, anestésicos, violão, entre outras. Há quem acredite que o alfabeto árabe, usado na escrita do idioma farsi moderno, seja originalmente persa. Existe, ainda, quem se ofenda se o interlocutor não compra a ideia de que até as pirâmides do Egito são, em realidade, obra de engenheiros persas. Para agradar um iraniano, concorde que o país dele tem as pessoas mais inteligentes, as mulheres mais bonitas, a gastronomia mais rica, o artesanato mais refinado e os jardins mais delicados” (p.09).

Neste trecho eu lembrei do filme Casamento Grego, onde o noivo sempre dizia que tudo era grego. Chineses, turcos (etnia otomana) e Mongóis dizem o mesmo sobre algumas dessas invenções. Logo, o maior mérito dessa excelente obra é desmistificar o povo iraniano, sua sociedade e cultura. Existem sim grupos que cegamente apoiam o governo, outros que criticam, outros que não ligam para política. Fato é que qual destes elementos não temos em todo lugar? Aqui no Brasil costumamos dizer que “Deus é brasileiro”. Imaginem um estrangeiro ouvir isso e colocar em prosa. Seria no mínimo hilário.

Distinção mais importante, no entanto, é sobre etnias. Encontrei a imagem abaixo no google e ela me pareceu bastante exata e atual. São inúmeras e distintas etnias convivendo entre si, com predominância da etnia “persa”, justamente aquela que remonta a glória de um império antigo e ancestral.

Etnias no Irã
Etnias e Sectarismos no Irã

Gostaria apenas de acrescentar, a título de curiosidade, que existem judeus vivendo no Irã desde a época do cativeiro babilônico. Não é uma convivência tranquila com a sociedade persa, já que o regime proíbe o ensino do hebraico de forma aberta, e as tensões religiosas estão acirradas. No entanto, trata-se de uma quantidade pequena da população, cujas mulheres e crianças estão miscigenando aos xiitas, o que destinará a população judia a sumir em breve.

A questão étnica é importante pois temos a idéia uniforme dos países. Associações mentais buscam facilitar a compreensão da realidade e tornam-se armadilhas no caso do Oriente Médio. Aspectos espinhosos ficam para trás, como a questão Curda, que é transnacional e um problema importante de segurança também no Iraque, Síria e Turquia. O governo do Irã mantém um relacionamento bom com os Curdos em seu território desde os Impérios anteriores, como o Sassânida. Hoje, o governo do Irã é responsável por armar alguns grupos curdos no Iraque como forma de resistência ao Estado Islâmico.

Voltando às etnias, a persa é a dominante em cultura e densidade demográfica. Mas não custa nada lembrar que etnia e religião são assuntos distintos. O Irã é uma teocracia xiita, o que significa que o regime de poder é composto pela autoridade religiosa que segue as orientações de sua teocracia para compor suas leis e diretrizes. Nós no Brasil, devido à ausência de conhecimento (ignorância) somos uma das poucas nações que entendemos a vertente xiita como a mais radical do Islã. Talvez ainda fruto da guerra Iraque x Irã, quando o Ocidente apoiou Saddam da forma que pôde e ajudou a demonizar o regime dos Aiatolás. O Waahabismo saudita é muito mais cruel e fechado…

Quando se vive sob uma teocracia, é preciso compreender que a imposição religiosa vem de cima para baixo. Ou seja, o governo define a orientação religiosa de sua população e ela é irrevogável. As identidades de poder se misturam às religiosas e a sociedade incorpora essa questão em seu cotidiano. Idealmente, toda sociedade iraniana seria homogeneamente xiita e praticante, pois assim lhe seria devido.

Mais uma vez a prática contradiz o mundo do “dever ser”. O Irã em sua maioria persa guarda resquícios ancestrais de importantes credos, como o zoroastrismo, cuja matriz de divindade tomou corpo no século VII A.C. Teve grande influência na pavimentação das crenças judaico-cristãs na região; inclusive, muitos cristãos e judeus habitavam os domínios persas com convivência salutar, até a Invasão Árabe do Século VII D.C., que acabou por incorporar o Islã em toda península e vizinhos, ai incluindo os impérios cuja predominância persa era evidente. Esse acontecimento é tratado como uma tragédia pelos persas até hoje, o que reforça o fato de crenças diversas como o Zoroastrismo, o cristianismo e o judaísmo serem praticados em segredo dentro das casas ou pequenas reuniões clandestinas. É aquele fato de o governo fingir que não existe e a população manter o fato em relativo segredo.

Funciona bem. O Irã não é um Estado bastante fechado. Ele possui restrições de comportamento, como existe em Cingapura e outros locais da Ásia, e demanda respeito a essas normas. Novamente, no entanto, a esfera privada funciona como em qualquer local do mundo, com festas, bebidas e comportamentos que ninguém ousaria tornar público. Turistas são mais tolerados por muitas vezes não conhecer os costumes, mas são avisados e recebem informativos importantes.

Esse assunto nos leva a outro. Direitos Humanos. É quase uma unanimidade que os iranianos não respeitam os direitos humanos. Concordo e acho que é preciso mudança. No entanto, a realidade dos direitos humanos no Irã não me afeta, a do Brasil sim. 54 mil homicídios por ano. A de outros países também não me afeta, mas vale ressaltar que os EUA vivem um ciclo problemático interno, com várias mortes e “pequenos massacres isolados” todo ano. A Europa nunca segregou tanto suas minorias e o problema com os refugiados do norte da Líbia deixou translúcida essa realidade. Portanto, como exigir mudança dos outros quando o sangue está presente na mão de todos?

O caso mais emblemático é Israel. Uma das comparações entre o Estado Islâmico e o Irã que Israel está fomentando para associar as imagens de terror e extremismo (mostrado no último post aqui) diz respeito às execuções. Para Israel é um absurdo que se aplique pena de morte, no entanto os milhares de mortos no conflito em Gaza (que atualmente parece um campo de concentração) especialmente na operação “Protective Edge” (2014), não coloca também os israelenses em condições ético-morais de ditar a esse respeito. Os relatórios da ONU e condenações do CS são bastante fartos a respeito. Ainda aguardo os pronunciamentos israelenses sobre os bárbaros sauditas, que executam muito mais e são um regime muito mais cruel e brutal do que o iraniano.

A Revista Foreign Policy deste bimestre (julho/agosto 2015 – número 213), uma das publicações mais respeitadas do mundo, traz uma entrevista com Lynsey Addario – jornalista vencedora do prêmio MacArthur “Genius” – (sequestrada por duas vezes, uma no Iraque em 2004 e na Líbia em 2011) e com a vencedora do prêmio Nobel da Paz Shirin Ebadi, advogada iraniana que busca a proteção dos direitos humanos, especialmente para os seguidores da seita Bahal. Essa seita vem sendo sistematicamente perseguida por ser a maior minoria não-muçulmana. Durante essa entrevista, fica exposta a perseguição do regime contra seus opositores, de forma brutal com execuções, prisões arbitrárias e exílios forçados. É uma reportagem bastante interessante. Eu não defendo o regime iraniano, só reconheço que não há forma suave e nem é devido ao Ocidente querer impor uma forma de governo democrático (Iraque e Afeganistão estão ai) que lhe atenda, visto que no Oriente é um consenso que cada Estado se ocupe de seus assuntos internos (Rússia, China e Índia lideram essa vertente).

O Tribunal Penal Internacional aguarda até hoje a presença dos Estados Unidos em seu quadro…

Em um mundo cheio de contradições e paradoxos, é preciso que se crie senso crítico ao pensar o Irã. Com muitos problemas e desordem, como todos os outros Estados, ele não deve ser colocado em um rótulo ou tratado como mero espectador dos fatos. Trata-se de uma sociedade complexa, com suas formas individuais de resistência e absorção dos impactos que lhe são feitas. As sanções causaram enormes prejuízos sociais, econômicos e individuais, e a suspensão das mesmas é fundamental para que não se crie uma espiral ainda maior de ódio e hostilidade. A sociedade iraniana convive com aspectos ocidentais, e convive muito bem.

Só não podemos colocar no mesmo pacote os persas, árabes, judeus e otomanos esperando formular uma única política de aproximação e contentamento a todos.

Enfim, este pequeno artigo visa apenas aproximar um pouco mais a sociedade iraniana e seu comportamento do leitor comum. Os últimos acordos assumidos no p5+1 tem ótima relevância por trazer pouco mais de confiança e mútua cooperação entre todos. Minha torcida é para que todas as partes sigam o que foi proposto e para que Israel não lance um ataque preventivo, o que provocaria uma espiral conflituosa capaz de arrastar as grandes potências do planeta para um embate muito maior.