AS MULHERES NA JIHAD, POR QUE?

Este é um artigo traduzido na íntegra deste local > World Politics Review.

Oferece uma visão importante sobre a participação das mulheres no Estado Islâmico, e tenta explicar o que leva este fato a ocorrer com maior frequencia. Por que mulheres entram para lutar a favor de um movimento que a rebaixa e humilha? Intrigante.

A tradução abaixo foi autorizada por World Politics Review em JAN.20/2015

Em Amarga Ironia, Mulheres Jihadistas servem como Propaganda Útil.

Por Frida Ghitis, JAN. 15,2015

Quando os oficiais franceses anunciaram que buscavam por uma mulher na condição de cúmplice no ataque à um mercado judeu em Paris, no qual quatro reféns foram mortos, muitos no Ocidente se abalaram em suas convicções. Como seria possível que uma mulher, nascida e criada no Ocidente, se tornasse Jihadista, uma combatente alinhada à uma ideologia extremista que é hostil às mulheres?

Hayat Boumedienne, como se sabe, é apenas uma de uma surpreendente quantidade de mulheres ocidentais que vêm se juntando à grupos Islâmicos nos últimos anos. Os números exatos não são conhecidos, mas pesquisadores tem uma idéia de quantas mulheres européias viajaram para Síria nos últimos meses para se juntarem ao chamado Estado Islâmico (EI), e eles acreditam que o número beire as centenas, vindas de França, Alemanha, Reino Unido e demais. Ao menos uma mulher americana foi morta lutando na Síria, e muitas foram presas tentando chegar lá.

O fato de mulheres que vivem em países onde gozam de liberdade e igualdade de direitos querendo se filiar a uma organização que esposa padrões de comportamento do século VII pede uma explicação. Mas é também instrutivo aprender como grupos jihadistas, todos liderados por homens, enxergam o papel das mulheres em suas campanhas.

Como é de se esperar, há uma grande controvérsia entre as lideranças de organizações Islâmicas violentas sobre a permissão ou não da entrada das mulheres, ou de seu envolvimento direto nas operações jihadistas.

Para as mulheres, o apelo da jihad não é tão diferente do que é para os homens. A causa dá à elas uma forma de participar no que entendem ser uma causa de suma importância, um momento de mudança, as faz sentir que estão fazendo a diferença no mundo, ajudando a tornar uma utopia em realidade.A combinação de dogma religioso, objetivos políticos e problemas sociais forma um coquetel poderoso, daqueles que podem intoxicar ambos os gêneros.

Em alguns casos, é tão intoxicante a ponto de fazer as mulheres ignorarem o fato de grupos como o Estado Islâmico enxergarem-nas como subservientes aos homens, e ainda estão envolvidos em horrendos atos de misogenia, chegando ao ponto de restabelecer mercados de escravos, para venda de mulheres.

Para uma organização como o EI, recrutar mulheres para sua composição, particularmente a mulher Ocidental, serve a alguns propósitos. O valor propagandístico de uma recruta Ocidental é enorme, desconstruíndo o argumento de que o assim chamado califado, seja uma ameaça às mulheres.

Para além dos motivos propagandísticos, o EI precisa de mulheres servindo como esposas para seus soldados, e aquelas que falam línguas outras que não o Árabe, podem auxiliar nas mídias sociais, liberando os homens para a frente de batalha.
A imagem de Hayat Boumedienne coberta dos pés a cabeça com um niqab (Burca) e apontando uma besta, sugere seu interesse em operações de combate direto, mas não é desta forma que as mulheres estão sendo usadas pelo EI. Em Raqqa, a suposta capital do califado, as mulheres servem de suporte. Há uma brigada composta por mulheres em sua totalidade, a al-Khansa, cujo trabalho é reforçar as medidas sociais e outras medidas adotadas pela corte Islâmica para as mulheres.

Em contraste com outras organizações, notadamente a Al-Qaeda, que não permite às mulheres a adesão a seu grupo, o EI fez um esforço deliberado para recrutá-las. Há um trabalho direcionado em redes sociais apenas para as mulheres, colocando conselhos de como ser uma boa esposa de um jihadista, e também com receitas para manter um soldado bem alimentado e saudável em batalha.

Isso pode ajudar a explicar o porque de o ataque ao Charlie Habdo em Paris parecer uma operação Al-Qaeda – sua afiliada, a Al-Qaeda na Peninsula Arábica (AQPA), se responsabilizou ontem – e já no mercado Kosher, levado a cabo pelo marido Boumedienne, uma operação do EI.

O papel das mulheres têm confundido os ideólogos islamicos há algum tempo. Mas os benefícios táticos que elas oferecem equilibraram a balança. O Xeque Ahmed Yassim, líder espiritual e um dos fundadores do Hamas, anunciou em 2002 que somente homens conduziriam os ataques suicidas (homens-bomba), dizendo que o Hamas “renunciou categoricamente ao uso de mulheres como ‘homem-bomba’”. Mas dois anos depois, quando a segurança israelense se intensificou e os beneficios de usar mulheres nos ataques tornou-se mais evidente, ele mudou de idéia. Ele notou “uma evolução significativa em nossa luta”, adicionando que “soldados homens encontram muitos obstáculos”.

Já a Al-Qaeda, em relação a esse assunto sempre foi clara em suas regras. Em 2007, durante uma sessão de perguntas e respostas em seu fórum, o então número 2 da organização e hoje líder Ayman al-Zawahiri foi perguntando por um usuário chamado Ghurba, “A Al-Qaeda aceita mulheres em suas frentes?” Zawahiri foi direto: “minha resposta à irmã Ghurba é não”.

A divergente posição da Al-Qaeda em relação ao EI pode ser rastreada até Abu Mussad al-Zarqawi, o líder da Al-Qaeda no Iraque, cuja célula cortou relações com a base e se tornou EI. Em 2005, Zarqawi exortou as mulheres muçulmanas a tomar seus lugares na Jihad, mas ele foi bem específico sobre o que se referia. “A mulher Jihadista é aquela que cria seus filhos para se juntarem à Jihad, para lutarem e morrerem pela Jihad”.

Desde então, o EI expandiu o papel das mulheres na organização, mas continuam limitadas à posições de suporte, não de combate direto.

Não é de surpreender que nem todas as Muçulmanas militantes estão felizes com essas restrições. Algumas estão citando versos do Corão para argumentar que as mulheres pertencem ao campo de batalha, com “participação na luta de verdade”.

A ironia, claro, é que essas mulheres buscando a batalha ombro-a-ombro com os homens na luta para impor a Lei Islâmica extremista estão, de fato, ansiosas por estabelecer uma forma de vida que as relegaria para periferia da sociedade, como as mulheres afegãs descobriram enquanto o Taleban governou aquele país.

Para as mulheres Muçulmanas que desejam se engajar numa batalha histórica, há um local onde seu papel é igual ao do homem – um exército onde elas recebem armas e atiram para matar um inimigo odioso, bem no meio do campo de batalha do EI: as soldados Kurdas que tem desempenhado um papel majoritário contra o EI na cidade Síria de Kobani, próximo de onde as forças de segurança acreditam que Hayat Boumedienne passou antes dos ataques em Paris.

Frida Ghitis is an independent commentator on world affairs and a World Politics Review contributing editor. Her weekly WPR column, World Citizen, appears every Thursday. Follow her on Twitter at @fridaghitis.

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