ANÁLISE DOS RESULTADOS – ELEIÇÕES NO IRÃ – 2017

iranelect.jpg

Como é de praxe, uma breve explicação sobre os resultados eleitorais no Irã em 2017. Apesar de a análise fria dos números traduzir a realidade simplista de continuidade dos reformistas, personificados em Hassan Rouhani, a análise prática traz significados sempre mais complexos a respeito das dinâmicas internas de um país tão controverso.

Pesar de Rouhani pertencer a uma ala bem moderada dentre os Clérigos, ele ainda é um deles. Não podemos dissociar a influência da teocracia xiita sobre todos os aspectos da vida política do Estado Iraniano, já que muitos tendem a “idealizar” o reeleito presidente como um elemento de ruptura do radicalismo de Ali Khamenei. De fato, ele não é o candidato favorito de Khamenei, o derrotado Ebrahim Raisi, e eis ai a diferença: Rouhani é o mais moderado dentre os radicais.

Em seu discurso da vitória, alguns pontos merecem destaque (reportagem disponível aqui):

Nossa nação deseja viver em paz e em amizade com o mundo, mas ao mesmo tempo, ela não aceitará qualquer ameaça ou humilhação”.

Este trecho é uma clara referência à Trump e sua ideia de revisar a suspensão das sanções econômicas. Além do mais, as eleições iranianas ocorrem junto ao fechamento de uma venda recorde de armamentos por parte dos EUA aos sauditas, na ordem de U$ 110 bilhões.

Vejam que número U$ 110.000.000.000,00!!!

Esse item é uma mensagem clara de apoio. Há todo um simbolismo na visita externa do presidente dos EUA, e o destino ser a Arábia Saudita, indica a preferência por um aliado e parceiro. Esse é assunto do próximo texto. Ao final deste, colocarei links aqui do blog mesmo onde essa disputa já foi tratada. O complexo xadrez Arábia Saudita, Síria, Irã, Turquia e Israel.

Voltando ao Irã, temos que analisar algumas óticas que ditam as posturas dos clérigos xiitas na condução da teocracia. A ala mais dura, capitaneada pelos preferidos de Khamenei se dividem nos partidos CCA e ICP (siglas em inglês, mas na tabela abaixo traduzi os resultados e partidos para melhor visualização). Essas duas siglas são distintas entre si apenas pela tradição, e ambas preferem o embate à negociação. Optariam pelo dilema de segurança e a famosa dissuasão pelo medo, através de ameaças e escaladas tensas, capazes sim de criar um conflito de médio / longo prazo com Israel por exemplo. Não podemos esquecer quando Ahmadinejad (presidente de 3 de agosto de 2005 a 3 de agosto de 2013) destilava antissemitismo em seus discursos. Pertenciam ao partido ultraconservador Abadgaran, que abraçava e concentrava esses ideais dos clérigos mais radicais.

A ala mais moderada pertence a clérigos com visão multidisciplinar, que vislumbram participação maior no mundo e compreendem a posição iraniana, extremamente dependente de uma economia baseada em Petróleo. Estes compreendem que nenhum Estado pode mais existir sozinho e com dignidade no Sistema Internacional. O Estadão de hoje traz um infográfico importante, reproduzido abaixo na íntegra:

Infográfico Estadao (21052017)

Tudo isso subsidiou os resultados abaixo:

Eleicao

Lá, diferente daqui, as pesquisas também tiveram sucesso em ler a realidade pré-eleitoral:

Opinion_polling_for_the_Iranian_presidential_election,_2017

Mas como nem tudo são flores, o apoio ainda não é tão maciço quanto supõe a frieza dos resultados. O reeleito Rohani terá que lidar com uma agenda complexa:

Nível Doméstico:

  • Melhorar os indicadores de emprego (desemprego hoje é 12,5%  – 27% entre os jovens);
  • Reequilibrar a ainda alta dívida pública;
  • Melhorar a imagem do governo para população em geral, já que foi acusado de governar para os 4% mais ricos e privilegiar o ganho financeiro;
  • Trabalhar de forma enérgica para reduzir a dependência do petróleo;

Nível Internacional:

  • Reduzir a desconfiança cada vez maior para com o propósito do projeto nuclear;
  • Equilibrar as percepções e administrar as relações com Israel, Turquia e Arábia Saudita;
  • Trazer Trump e Putin para um equilíbrio independente, através da inserção chinesa;
  • Administrar pela cooperação multilateral;

Um Irã estável, é um Oriente Médio fortalecido.

Não vou analisar aqui a participação dos conflitos regionais no Iêmen e a participação da Guarda Revolucionária no cenário iraquiano, pois serão temas de textos futuros e não influenciaram o resultado.

Para saber mais:

FINALMENTE UM ACORDO SOBRE O IRÃ – I 

FINALMENTE UM ACORDO SOBRE O IRÃ – II – SOCIEDADE CIVIL E PERCEPÇÕES

O CÁLCULO SAUDITA E UM NOVO ORIENTE MÉDIO

COMO O IRÃ FORTALECE O TALEBAN?

 

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