ORIENTE MÉDIO, TERROR, LOBOS e CAOS – Mundo hoje (Julho/2016)

É terminantemente impossível traçar assuntos sobre Oriente Médio e terrorismo sem que as conjunturas se amarrem, retorçam, abracem e passem a se repelir constantemente. Dado este fato de intransigência real por parte da história, que insiste em nos atormentar e apimentar a realidade com complexidades variadas, este texto é um apanhadão para que as evidências se tornem pouco mais tangíveis ao leitor pouco familiarizado com as intrincadas e fragmentadas disputas locais de alcance global.

A parte fácil é: Não é possível estabelecer relevância entre os temas.

A parte difícil é: Não é possível delimitar inicio e fim de todos estes mesmos temas.

Enfim, vamos começar pela Turquia (Já abordada aqui e aqui). Os turcos enfrentaram, no dia 15/07/2016, um anoitecer épico. Desenhou-se um Golpe de Estado, onde setores militares descontentes tentaram tomar o poder. Reza a lenda que os militares turcos resguardam os valores laicos e seculares implantados na dissolução do Império Otomano, a partir de 1918. Na prática, alguns setores militares se rebelaram enquanto outros setores militares foram contra. O resultado foi desencontro e uma pitada de bom senso que evitou um enorme derramamento de sangue civil.

Os civis foram para as ruas, atendendo os apelos de Erdogan. Os militares que arquitetaram o golpe não atiraram, os soldados não conseguiram matar sua própria população por um ideal tão fraco, uma vez que a Turquia não estava sob ameaça real de existências. Sorte de todos nós, pois a importância estratégica turca é fundamental para segurança do globo.

Como já abordado em outros textos, o fato preocupante ao final, é que as aspirações totalitárias de Erdogan foram catalisadas com o processo do golpe. O clima de insegurança e a brecha institucional permitiram a implementação de um Estado de Emergência, com inúmeros militares presos, rivais políticos ameaçados, julgamentos sem defesa, enfim, uma série de medidas que empoderaram o mandatário e enfraqueceram as instituições democráticas.

Tal foi o ponto que, no último domingo, 24/07/2016, manifestações públicas enormes foram convocadas por partidários de esquerda, centro e centro-direita, na tentativa de deixar uma mensagem clara à Erdogan: “NEM GOLPE DE ESTADO, NEM DITADURA!”, como pode ser conferido neste link e neste outro link.

Ópera resumida, fica a questão: De onde surgiu essa tentativa de golpe? Dentre muitas especulações, a minha favorita é: Rússia !!

turkrussia

Desde o episódio do caça, as relações ficaram difíceis. Talvez difíceis o suficiente para que Putin conseguisse convencer setores amigos dentro dos militares e destruir vários coelhos com esta paulada:

  • Desestabilizar Erdogan = Estabilizar um aliado no Golpe;
  • Estabilizar um governante aliado = Cooperação mais fácil;
  • Cooperação mais fácil = Aumento na influência político-econômica;
  • Aumento na influência político-econômica = cooperações diversas em vários níveis;
  • E tudo isso com o bônus de ter em seu poder uma das maiores e melhores bases / equipamentos / contingentes da OTAN.
  • OTAN que absolutamente é o fator mais difícil para Putin aceitar.

Enfim, só há benefícios aos russos. Isso os coloca automaticamente na posição #1 na lista de causa provável, de maior beneficiário, de interesse direto.

No entanto quando pensamos em Turquia, devemos olhar um quadro também amplo, conforme divulga o excelente site Statista:

statista

Golpes e tentativas de golpe na Turquia desde 1960; foram 5, já contando este último da semana passada. A presença militar na política interna turca é endêmica, complexa e abrangente, como uma teia. Podemos ter presenciado a morte da Turquia de Attaturk, e a consolidação da Turquia de Erdogan:

Aftermath of an attempted coup d'etat in Turkey
EPA/SEDAT SUNA

Sabe-se Deus quanto tempo vai durar a confusão institucional turca, mas parece que a sociedade civil organizada não tolerará um avanço centralizador ou teocrático. No entanto, questiono a capacidade da população, quando dentro do processo, de vislumbrar o que de fato ocorre. Se Erdogan minar a legitimidade institucional e legitimar uma centralização decisória, qual será a capacidade de reação social quando o exército e demais forças estão divididos e enfraquecidos?

Ok, sem divagar muito, esta foi a atualização da Turquia. Vamos ao terror.

Apesar dos grandes atentados ocorrerem no Iraque, no Sudão, na Síria, e em demais países ás centenas por ano, com milhares de mortos, a atenção do Ocidente reside em seu umbigo. Na mesma semana de Nice, tivemos centenas de mortos no Iraque em um carro bomba. Vidas valem mais do que outras? Claro, quando atingem o seu espectro social (eu não concordo com isso, mas não posso ser hipócrita de achar que as pessoas consideram que um cidadão morto em Burkina-Fasso cause a mesma dor da morte de seu vizinho). Somos animais políticos, e animais sociais.

Além de tudo, o que causa espanto atualmente é a quantidade de lobos solitários agindo. Saudades de quando um lobo solitário pertencia apenas a Hollywood ou Mangás.

Slide1

Infelizmente, nossos lobos solitários de hoje causam um temor particular: são praticamente indetectáveis pelas agências de segurança e inteligência, pois são quase invisíveis em meio a uma multidão ordinária de transeuntes. O lobo solitário, o psicopata da vizinhança, aquela pessoa estranha que todos conhecemos e que pode ser potencialmente perigoso, escapa a qualquer verificação comum. Infelizmente, sofrem não só de uma anomalia mental, sofrem também de um distúrbio social sério, que vislumbra mudanças com sangue. São sociopatas.

Seja por simpatia à causa ou por identificação pessoal, o lobo solitário inflige um terror particularmente cruel: ele não possui raça, etnia, distinção social que o caracterize. Temos um cidadão alemão, de descendência iraniana abrindo fogo em um shopping center em Munique (22/07/2016), por que? Motivação? Ninguém sabe, mas é um tipo de terror que não permite impor etiqueta de identificação ou caracterização fácil.

A Europa e os Estados Unidos são alvos fáceis para esta modalidade, pulverizada e efetiva em impor o terror. Considerando o excelente mapa feito pelo Telegraph (UK), temos que várias regiões possuem um alto risco de ataques:

terrortreat1

E quando olhamos no panorama localizado em Norte da África, Oriente Médio e Europa, temos uma ideia do risco global e generalizado que as inspirações do terror geram. O que nos leva a um questionamento e ao próximo tema. O medo do terror pode mudar as concepções de soberania e comportamento? SIM! Prova? BREXIT !

Brexit+2_20160623001531

com 51,9% dos votos, o Reino Unido deixou a União Europeia através de consulta popular (final de junho). Uma análise apurada dos números mostra que  Londres, cidade cosmopolita e capital composta de muitas etnias diversas, acostumada à miscigenação, votou contra a saída, por entender os riscos desta medida. Já os conservadores, mais velhos, acostumados à ideia de que “good fences make good neighbours” (boas cercas fazem bons vizinhos), ou seja, uma relação íntima entre controle, fronteiras, imigração e presença estrangeira = segurança, votaram a favor da saída.

Impossível não ligar esta decisão à crise dos imigrantes sírios e de outras partes da África e do Oriente Médio que buscam uma vida mais digna no Oásis Europeu.

middle-540181

Curioso constatar a repulsa de grande parte dos europeus e  o recrudescimento inicial em relação à estrangeiros ameaçarem seu Welfare State. Claro que Alemanha e França buscaram, em sua liderança, coordenar os esforços junto da Grécia e de outros Estados, limitando quantidades, mas oferecendo o auxílio possível.

Mas de boas intenções, o inferno está abarrotado… Fato é que uma injusta política de repelir imigrantes toma conta do continente europeu, e especialmente dos ingleses. Cameron jamais concordou com qualquer medida ou acordo que fizesse o Reino Unido receber imigrantes, especialmente sírios. Me atrevo a dizer que, se não houvesse derrubada de Saddam Hussein em 2003 (contribuição direta da Inglaterra, aliás), não haveria refugiados sírios hoje.

Earth Cartoon

Mas Karma é coisa de Hindu, também ex-colônia… by the way…

E com o Brexit, vou emendar um penúltimo tema importante, presente em facebooks por todo o mundo. A ideia de que o Islã é o causador do terror. Ideia que combato com veemência, mas que vem dominando corações e mentes no Ocidente.

Por que discordo? Porque o religioso não é a religião. Nem todo católico é pedófilo ou corrupto de banco (aliás, uma extrema minoria criminosa o é), e nem todo muçulmano é terrorista. Aliás, as maiores vítimas do terror são os muçulmanos. Não sejamos rasos em nossas respostas, buscando simples fatos em questões muito mais complexas.

Muitos desmiolados se digladiaram no passado pela Terra Santa, com argumentos muito parecidos com os utilizados pelos terroristas de hoje… E a linha do tempo do facebook se inunda de imagem de templários, de pessoas imaginando uma guerra Oriente x Ocidente, entendendo que uma religião causa mal ao mundo:

E, no entanto, estamos no século XXI, com entendimento e educação capazes de demonstrar que a manipulação de algumas massas para fins religiosos de salvação ocorre em várias crenças, esferas, fatos… E quando o líder é budista e visa exterminar muçulmanos? (link, link, link). Não vi cruzadas contra budistas… Nem charges que justificassem o ato.

Caro leitor e amigo, não espalhe violência gratuita. A religião é o que as pessoas fazem dela. Templários matavam em nome de Deus e de Jesus, no entanto eu ainda não encontrei uma mísera linha no novo testamento que consiga justificar este tipo de comportamento animalesco.

Qual foi a percepção dos muçulmanos que conservaram grandes pensadores ocidentais de nossa própria barbárie?

E eis o último tema, ainda em desenvolvimento por vários meses próximos, as eleições americanas! Por enquanto o “azarão” Trump surfa na onda de contramedidas ao terror, incitando a população, inflamando um nacionalismo cego e hostil ao mundo. Ameaçando sair da OMC e murar a fronteira com o México. Hillary Clinton parece não ter levado a sério o suficiente a candidatura de Trump, mostrando-se despreparada na argumentação e perdendo importantes pontos de credibilidade com sua atuação utilizando e-mail pessoal como Secretária de Estado.

hillary-clinton-400x225

Fato é que o “momentum” é todo de Trump. Caso não haja um escândalo sério ou reviravolta absurda, ele será o fanfarrão novo presidente da maior potência do globo. Que fase heim !!

trump

Termino o apanhadão de Julho com uma citação de Avicena:

O conhecimento de qualquer coisa, dado que todas as coisas tem causas, não é adquirido ou conhecido por completo a menos que seja conhecido por suas causas” – Avicena

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s