COMO O IRÃ FORTALECE O TALEBAN?

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Hoje nós vamos discutir um assunto bastante sério, sangrento, cruel, brutal, mas também interessante do ponto de vista estratégico. Entendam que não se trata de aprovar ou desaprovar conflitos e mortes, eu sempre desaprovo sangue jorrando. Mas a minha reprovação não impede a continuidade dos conflitos ao redor do planeta, especialmente no Oriente Médio. É nosso dever, portanto, analisar os fatos de uma forma pragmática.

Ao menos cinquenta pessoas foram mortas em um ataque relâmpago, uma operação cirúrgica do Talibã afegão ao aeroporto de Kandahar, no sul do país. Este aeroporto era utilizado por operações americanas e por algumas forças operacionais da OTAN. Desde 21 de outubro de 2014, o controle do aeroporto e das operações é exclusivamente dos Estados Unidos (Link). Até então, o Afeganistão vive situações similares desde 2001, quando as intervenções ocidentais arrasaram a já precária situação político-social do país. O Taleban flerta diretamente com as vertentes mais perversas do sunismo, e realmente instaurou um regime tirânico que perpetrava o terror, além de permitir campos de treinamento diversos para outros grupos paramilitares e supranacionais. Classificado como um Estado Fraco e um Santuário, ou seja, um país onde a economia quebrou e que vivia em um regime disperso, incapaz de deter soberania e reconhecimento internacionais, tornou-se um prato cheio para proliferação de terroristas. Automaticamente, um alvo após o 11/9.

Por diversas vezes neste blog comentei as razões, motivos e capacidades do Estado Islâmico. Fato é que do ponto de vista sectário, os sunitas não são iguais. O Califado Islâmico (representado pelo Estado Islâmico) deveria unificar os sunitas ao redor de sua esfera de governo, tornando vivo um sonho imperial baseado em uma teocracia, aos melhores modos medievais. Já o Taleban, não busca nada além do que o governo local do Afeganistão e a implementação de sua versão da Sharia (ou Xariá), de acordo com o entendimento do Islã que mais lhe convém. Os setores de inteligência de vários Estados já vincularam células fiéis ao EI operando no sul do Afeganistão. Agora, com o cenário desenhado, vamos aos significados.

O XADREZ AFEGÃO

Como venho destacando há algum tempo neste site, o Irã e a Arábia Saudita são os agentes regionais mais atuantes e mais importantes na influência político-militar do Oriente Médio. O caso afegão evidencia esse destaque. Vejam a localização do Afeganistão no mapa.

Mapa

É um território crucial para consolidação de qualquer poderio razoável por parte do Irã, além de um polo incrível na estratégia que envolve Oriente Médio e Ásia. Estabilidade no Afeganistão, melhora automaticamente toda política regional.

O Irã combate o EI na Síria como aliado de Assad e Putin, além de consolidar seu poder com intervenções práticas de sua Guarda Revolucionária no Iraque e também com o financiamento de milícias Curdas naquele território. É absolutamente neste ponto em que o sectarismo é abandonado para consolidação de uma política regional de segurança. Não podemos pensar em 100% das relações regionais como religiosas, antes, elas são estratégicas. Seguindo a mesma lógica, o Irã fortalece o Taleban afegão para que este combata as células regionais do EI, ao mesmo tempo em que opera várias frentes, ajuda a concentrar seus esforços e suas forças próprias para evitar que surjam e se consolidem as células do EI no próprio Irã.

Portanto, o Irã fortalecerá o Taleban em detrimento do EI. É essa a disputa em um tabuleiro de várias frentes. Mas o que a Arábia Saudita tem a ver com isso? Os sauditas têm interesse em um problema regional ao Irã, e deve enviar recursos às células do EI onde puderem. Um conflito direto entre as potências é travado no Iêmen, onde os Houthis xiitas são financiados pelo Irã e os membros do governo sunita e do exército formal recebem recursos sauditas. Quando eu digo recursos sauditas, eu gostaria de lembrar que são, em sua maioria, equipamentos oriundos dos Estados Unidos.

O Senado americano já aprovou um novo envio de 1.29 bilhões de dólares em armas aos sauditas, o que deve deteriorar ainda mais a situação regional.

Voltando ao Afeganistão, a tendência é que o Taleban se fortaleça cada vez mais, mas que os conflitos se agravem, e que a OTAN e as forças de coalizão ocidentais, encontrem-se num papel de coadjuvante para um conflito ainda maior.

Gostaria também de lembrar que todo esse quadro é fruto dos seguintes elementos:

* Intervenções militares dos Estados Unidos e OTAN a partir de 2001 no Afeganistão

* Intervenção direta no Iraque em 2003

– Ambos sem a consolidação ou construção de um Estado Nação soberano, com políticas e economias próprias. Procurou-se apenas destruir estes Estados e acabaram por se enfraquecer ainda mais. A queda do Iraque significou um reforço automático ao Irã.

* Boicote e armamento aos rebeldes Sírios

– A tentativa ocidental de derrubar Assad fracassou e tornou a região refém do Estado Islâmico, que só encontrou espaço para crescer pois não receberia ataques das forças de Assad, que mantiveram a Síria em ordem econômico-social durante décadas.

* EUA e Ocidente com vistas grossas aos abusos do regime saudita

– A Arábia Saudita vive sob uma das mais sangrentas ditaduras do planeta. Por que nada é feito ou dito a respeito? Os americanos inclusive indicaram os sauditas para o painel de direitos humanos da ONU, cômico, se não fosse tão trágico.

Enfim, quanto mais intervenções ocorrem na região, maior o número de elementos que precisam ser levados em conta para que se entenda a arquitetura do poder em andamento.

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