FINALMENTE UM ACORDO SOBRE O IRÃ – II – SOCIEDADE CIVIL E PERCEPÇÕES

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Vou tentar trazer um pouco da sociedade iraniana em suas características mais marcantes. Importante porque o Irã é uma sociedade bem distinta da idéia geral que fazemos dela. Imaginamos muçulmanos xiitas por todos os lados com fervores religiosos e cegos seguidores dos Aiatolás que os governam. Ledo engano. Trata-se de uma sociedade absolutamente descolada de seu centro de poder, com vida própria.

O principal relato em língua portuguesa, e, na minha humilde opinião, o mais justo e sensato é o de Samy Adghirni, que foi correspondente da Folha em Teerã e fez um relato cujo conteúdo é excepcionalmente gostoso de ler. Foi lançado aqui pela editora Contexto, na também excelente coleção “Povos e Civilizações”. Possui preço justo e linguagem ao alcance de todos. Não há desculpas para nutrir uma visão preconceituosa.

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Destaco sempre o primeiro capítulo desta obra, chamado “QUEM SÃO OS IRANIANOS?” onde o autor coloca detalhes culturais em síntese, muito importantes para compreensão dessa fragmentação entre cultura x sociedade x governo e poder. Destaco alguns pontos (grifos meus):

Os iranianos, principalmente os da etnia persa dominante, cultivam a certeza de pertencer a uma das mais antigas e gloriosas civilizações. Alimentam com orgulho a memória de um povo que dominou boa parte do mundo graças a sucessivos impérios e cuja ciência um dia iluminou a humanidade. A grandeza iraniana compõe boa parte daquilo que Carl Jung chamava de ‘inconsciente coletivo’. Crianças crescem ouvindo histórias sobre o papel central de seu país na história do mundo. Na literatura, alguns clássicos têm como narrativa as conquistas persas. Quase todos os líderes nacionais ao longo da história projetaram algum de tipo de hegemonia enraizada na ideia de um povo nobre de excepcional destino. Há muitos iranianos ateus ou alheios à religião, mas são raros os que não são ufanistas” (p.09).

Há muitos iranianos ateus? E a nossa imagem daquelas multidões com turbantes? Já por “alheios à religião” eu entendo os nossos famosos “não praticantes”. Ou seja, trata-se apenas de uma sociedade, como qualquer outra, onde usos e costumes convivem, se contradizem e se espelham. Ainda nessa introdução o autor nos ensina que:

De todo modo, esse triunfalismo ecoa facilmente num país onde o fervor nacionalista pode soar ora ingênuo, ora arrogante aos ouvidos de um visitante estrangeiro. Iranianos, por exemplo, reivindicam paternidade sobre algumas das principais invenções da humanidade: vinho, sapato, xadrez, sorvete, refrigeração de ar, sistema postal, anestésicos, violão, entre outras. Há quem acredite que o alfabeto árabe, usado na escrita do idioma farsi moderno, seja originalmente persa. Existe, ainda, quem se ofenda se o interlocutor não compra a ideia de que até as pirâmides do Egito são, em realidade, obra de engenheiros persas. Para agradar um iraniano, concorde que o país dele tem as pessoas mais inteligentes, as mulheres mais bonitas, a gastronomia mais rica, o artesanato mais refinado e os jardins mais delicados” (p.09).

Neste trecho eu lembrei do filme Casamento Grego, onde o noivo sempre dizia que tudo era grego. Chineses, turcos (etnia otomana) e Mongóis dizem o mesmo sobre algumas dessas invenções. Logo, o maior mérito dessa excelente obra é desmistificar o povo iraniano, sua sociedade e cultura. Existem sim grupos que cegamente apoiam o governo, outros que criticam, outros que não ligam para política. Fato é que qual destes elementos não temos em todo lugar? Aqui no Brasil costumamos dizer que “Deus é brasileiro”. Imaginem um estrangeiro ouvir isso e colocar em prosa. Seria no mínimo hilário.

Distinção mais importante, no entanto, é sobre etnias. Encontrei a imagem abaixo no google e ela me pareceu bastante exata e atual. São inúmeras e distintas etnias convivendo entre si, com predominância da etnia “persa”, justamente aquela que remonta a glória de um império antigo e ancestral.

Etnias no Irã
Etnias e Sectarismos no Irã

Gostaria apenas de acrescentar, a título de curiosidade, que existem judeus vivendo no Irã desde a época do cativeiro babilônico. Não é uma convivência tranquila com a sociedade persa, já que o regime proíbe o ensino do hebraico de forma aberta, e as tensões religiosas estão acirradas. No entanto, trata-se de uma quantidade pequena da população, cujas mulheres e crianças estão miscigenando aos xiitas, o que destinará a população judia a sumir em breve.

A questão étnica é importante pois temos a idéia uniforme dos países. Associações mentais buscam facilitar a compreensão da realidade e tornam-se armadilhas no caso do Oriente Médio. Aspectos espinhosos ficam para trás, como a questão Curda, que é transnacional e um problema importante de segurança também no Iraque, Síria e Turquia. O governo do Irã mantém um relacionamento bom com os Curdos em seu território desde os Impérios anteriores, como o Sassânida. Hoje, o governo do Irã é responsável por armar alguns grupos curdos no Iraque como forma de resistência ao Estado Islâmico.

Voltando às etnias, a persa é a dominante em cultura e densidade demográfica. Mas não custa nada lembrar que etnia e religião são assuntos distintos. O Irã é uma teocracia xiita, o que significa que o regime de poder é composto pela autoridade religiosa que segue as orientações de sua teocracia para compor suas leis e diretrizes. Nós no Brasil, devido à ausência de conhecimento (ignorância) somos uma das poucas nações que entendemos a vertente xiita como a mais radical do Islã. Talvez ainda fruto da guerra Iraque x Irã, quando o Ocidente apoiou Saddam da forma que pôde e ajudou a demonizar o regime dos Aiatolás. O Waahabismo saudita é muito mais cruel e fechado…

Quando se vive sob uma teocracia, é preciso compreender que a imposição religiosa vem de cima para baixo. Ou seja, o governo define a orientação religiosa de sua população e ela é irrevogável. As identidades de poder se misturam às religiosas e a sociedade incorpora essa questão em seu cotidiano. Idealmente, toda sociedade iraniana seria homogeneamente xiita e praticante, pois assim lhe seria devido.

Mais uma vez a prática contradiz o mundo do “dever ser”. O Irã em sua maioria persa guarda resquícios ancestrais de importantes credos, como o zoroastrismo, cuja matriz de divindade tomou corpo no século VII A.C. Teve grande influência na pavimentação das crenças judaico-cristãs na região; inclusive, muitos cristãos e judeus habitavam os domínios persas com convivência salutar, até a Invasão Árabe do Século VII D.C., que acabou por incorporar o Islã em toda península e vizinhos, ai incluindo os impérios cuja predominância persa era evidente. Esse acontecimento é tratado como uma tragédia pelos persas até hoje, o que reforça o fato de crenças diversas como o Zoroastrismo, o cristianismo e o judaísmo serem praticados em segredo dentro das casas ou pequenas reuniões clandestinas. É aquele fato de o governo fingir que não existe e a população manter o fato em relativo segredo.

Funciona bem. O Irã não é um Estado bastante fechado. Ele possui restrições de comportamento, como existe em Cingapura e outros locais da Ásia, e demanda respeito a essas normas. Novamente, no entanto, a esfera privada funciona como em qualquer local do mundo, com festas, bebidas e comportamentos que ninguém ousaria tornar público. Turistas são mais tolerados por muitas vezes não conhecer os costumes, mas são avisados e recebem informativos importantes.

Esse assunto nos leva a outro. Direitos Humanos. É quase uma unanimidade que os iranianos não respeitam os direitos humanos. Concordo e acho que é preciso mudança. No entanto, a realidade dos direitos humanos no Irã não me afeta, a do Brasil sim. 54 mil homicídios por ano. A de outros países também não me afeta, mas vale ressaltar que os EUA vivem um ciclo problemático interno, com várias mortes e “pequenos massacres isolados” todo ano. A Europa nunca segregou tanto suas minorias e o problema com os refugiados do norte da Líbia deixou translúcida essa realidade. Portanto, como exigir mudança dos outros quando o sangue está presente na mão de todos?

O caso mais emblemático é Israel. Uma das comparações entre o Estado Islâmico e o Irã que Israel está fomentando para associar as imagens de terror e extremismo (mostrado no último post aqui) diz respeito às execuções. Para Israel é um absurdo que se aplique pena de morte, no entanto os milhares de mortos no conflito em Gaza (que atualmente parece um campo de concentração) especialmente na operação “Protective Edge” (2014), não coloca também os israelenses em condições ético-morais de ditar a esse respeito. Os relatórios da ONU e condenações do CS são bastante fartos a respeito. Ainda aguardo os pronunciamentos israelenses sobre os bárbaros sauditas, que executam muito mais e são um regime muito mais cruel e brutal do que o iraniano.

A Revista Foreign Policy deste bimestre (julho/agosto 2015 – número 213), uma das publicações mais respeitadas do mundo, traz uma entrevista com Lynsey Addario – jornalista vencedora do prêmio MacArthur “Genius” – (sequestrada por duas vezes, uma no Iraque em 2004 e na Líbia em 2011) e com a vencedora do prêmio Nobel da Paz Shirin Ebadi, advogada iraniana que busca a proteção dos direitos humanos, especialmente para os seguidores da seita Bahal. Essa seita vem sendo sistematicamente perseguida por ser a maior minoria não-muçulmana. Durante essa entrevista, fica exposta a perseguição do regime contra seus opositores, de forma brutal com execuções, prisões arbitrárias e exílios forçados. É uma reportagem bastante interessante. Eu não defendo o regime iraniano, só reconheço que não há forma suave e nem é devido ao Ocidente querer impor uma forma de governo democrático (Iraque e Afeganistão estão ai) que lhe atenda, visto que no Oriente é um consenso que cada Estado se ocupe de seus assuntos internos (Rússia, China e Índia lideram essa vertente).

O Tribunal Penal Internacional aguarda até hoje a presença dos Estados Unidos em seu quadro…

Em um mundo cheio de contradições e paradoxos, é preciso que se crie senso crítico ao pensar o Irã. Com muitos problemas e desordem, como todos os outros Estados, ele não deve ser colocado em um rótulo ou tratado como mero espectador dos fatos. Trata-se de uma sociedade complexa, com suas formas individuais de resistência e absorção dos impactos que lhe são feitas. As sanções causaram enormes prejuízos sociais, econômicos e individuais, e a suspensão das mesmas é fundamental para que não se crie uma espiral ainda maior de ódio e hostilidade. A sociedade iraniana convive com aspectos ocidentais, e convive muito bem.

Só não podemos colocar no mesmo pacote os persas, árabes, judeus e otomanos esperando formular uma única política de aproximação e contentamento a todos.

Enfim, este pequeno artigo visa apenas aproximar um pouco mais a sociedade iraniana e seu comportamento do leitor comum. Os últimos acordos assumidos no p5+1 tem ótima relevância por trazer pouco mais de confiança e mútua cooperação entre todos. Minha torcida é para que todas as partes sigam o que foi proposto e para que Israel não lance um ataque preventivo, o que provocaria uma espiral conflituosa capaz de arrastar as grandes potências do planeta para um embate muito maior.

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