FINALMENTE UM ACORDO SOBRE O IRÃ – I

Viena foi mais uma vez o local a sediar um grande acordo. Fez jus aos outros que foram ali tratados, especialmente sobre soberania, direito e tratados. EUA, Rússia, China, França, Reino Unido, e Alemanha conseguiram chegar a um denominador comum quanto ao Irã. Esse acordo é especialmente importante pois tem a capacidade de redefinir os polos de poder no Oriente Médio.

O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, a representante da UE para Política Exterior e Segurança e vice-presidente da Comissão Europeia, Federica Mogherini, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, o embaixador iraniano na IAEA, Ali Akbar Salehi, e o ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, se preparam para foto em Viena - Leonhard Foeger / Reuters Retirado deste link (http://oglobo.globo.com/mundo/ira-potencias-alcancam-acordo-nuclear-final-2-16753520#ixzz3frkp0Iij)
O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, a representante da UE para Política Exterior e Segurança e vice-presidente da Comissão Europeia, Federica Mogherini, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, o embaixador iraniano na IAEA, Ali Akbar Salehi, e o ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, se preparam para foto em Viena – Leonhard Foeger / Reuters – Retirado deste link

Notem que só os iranianos estão sorrindo. Eles sabem que o acordo foi benéfico a todos, mas especialmente para eles.

Primeiro precisamos considerar as sanções econômicas. Elas estão destruindo a economia iraniana, que não é muito desenvolvida, mas possui um caráter médio importante, extremamente dependente das exportações de petróleo. Enormes estoques estavam parados em solo iraniano, e agora escoarão para todo o mundo consumidor. Essa simples perspectiva jogou os preços do barril mais ainda para baixo. Hoje cedo estavam 3% menores do que a média anual. Significa que o mercado já conta com excesso de petróleo no mercado e não vislumbra uma crise a curto / médio prazo.

Os acordos que suavizem sanções são sempre bem-vindos. Nenhuma nação assiste ao empobrecimento de seu povo sem um plano de desafogo ou alguma solução a curto prazo. Geralmente essas soluções são bélicas e unem a população em ufanismo e empolgação. Não faltam exemplos na história, e no caso do Irã, não é difícil imaginar essa situação. A economia não voltará automaticamente ao normal, mas medicamentos voltarão às prateleiras e os bancos receberão novamente autorização para operar, tornando ao menos a percepção econômica melhor para os iranianos.

Fato é que quanto mais durasse a disputa na mesa de negociações, maior era a chance de um conflito em larga escala acontecer. Esse sempre foi o desejo dos Republicanos e de Israel. O Irã considera essa hipótese, mas dados os custos envolvidos e a atual conjuntura da região, os persas, com certeza, optam pelo acordo ao invés da batalha. Com certeza todos perderiam demais. No entanto, Israel parece não se importar em expor sua opinião / tese de que os iranianos não são confiáveis.

Benjamin Netanyahu condenou veementemente o acordo, considerando que o Ocidente se rendeu aos Aiatolás. E a retórica israelense, junto com a propaganda, é extremamente forte e potente, ressoando por todo mundo judeu. Abaixo alguns exemplos do processo de “demonização” de um Estado, algo muito comum quando precede um conflito. A principal associação hoje é entre Irã e Estado Islâmico.

@ISIS-IRAN (Israel voice)

Link para imagem acima na página do Facebook da Israel’s Voice.

iran-nuclear-power-cartoon1-300x273

Encontrei este cartoon em uma busca pelo google.

Video – The Islamic State of Iran – like ISIS. Just much bigger. (O Estado Islâmico do Irã – Como o EI, só que bem maior).

A sanha israelense em atacar o Irã pode ganhar ainda mais força caso Obama perca suas eleições para os Republicanos. O lado bom é que nenhum candidato por lá deixou a possibilidade aberta de ataque o Irã, somente senadores que estão muito longe de representar a maioria da população americana, extremamente exausta de conflitos e carente de investimentos diretos justamente pelo dinheiro gasto na manutenção do status quo pelo globo. Esse fato reforça que a postura de Obama, em liderar essas negociações e trazer o Irã para mesa deverá ditar a política externa americana para o Oriente Médio pela próxima década. Israel deixou de ser o único parceiro, dividindo espaço com Turquia, Irã. E Arábia Saudita Justamente esse quadrado representa hoje os polos de poder na região.

Já tratamos exaustivamente aqui, mas não custa relembrar. O Irã utiliza o Hezbollah (braço armado no Líbano), financia milícias xiitas em outros países do Golfo, bem como os Curdos no Iraque (onde coloca até sua Guarda em atuações especiais quando necessário). Ou seja, os iranianos atuam decisivamente em importantes focos, como no Iêmen, onde financiam os Houthis.

De qualquer forma, Obama também “delegou” mais poder aos atores regionais, tornando a presença dos EUA tanto quanto incerta e alterando os cálculos das políticas que estavam em andamento. Um ataque israelense ao Irã será impossível sem o apoio logístico e bélico dos EUA. As usinas / unidades de processamento estão divididas ao longo do extenso território, como abaixo:

@mapeamento_nuclearsites

Link para imagem original.

A mensagem de Obama é clara, precisa de suporte doméstico para conduzir suas políticas nacionais, e não vai comprometer mais soldados, armamentos e recursos em um novo conflito (inclusive, uma de suas principais promessas de campanha) e acima de tudo, em um conflito preventivo.

No site da Casa Branca, há uma página especial explicando os principais pontos do acordo. Colocarei abaixo os principais slides. A idéia geral é a de que o Irã, hoje, conseguiria a bomba em 2-3 meses de esforço total, enquanto que, desobedecendo o acordo, as sanções voltariam automaticamente por 10 anos (prorrogáveis por mais 5) e o tempo para alcançar a bomba seria de ao menos 1 ano de esforço total. Logo, subtende-se que todas as partes ganharam estabilidade e tempo, dois fatores dos mais importantes.

@Iran_deal_Whitehouse1 @Iran_deal_Whitehouse2

O Irã será um dos maiores parceiros americanos no Oriente Médio a partir de hoje, ainda que ambos os Estados não mantenham representação diplomática oficial entre si. Paradoxos do mundo…

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2 comentários sobre “FINALMENTE UM ACORDO SOBRE O IRÃ – I

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