ELEIÇÕES NA TURQUIA – COPO MEIO CHEIO OU MEIO VAZIO?

TURKEYFLAG

A Turquia viveu um período eleitoral importante neste último final de semana. Lá estariam sendo julgados os atos de Erdogan pela última década e meia de mandos e desmandos, alterações e reformas práticas que conduzem o povo turco a um cenário cada vez menos amigável economicamente, com um Estado se fechando e rumando ao Oriente, em uma quebra fundamental dos preceitos outrora legados de Ataturk (pós primeira guerra mundial) e conduzidos pelas décadas seguintes.

A eleição foi um plebiscito pessoal de Erdogan, onde ele pôde verificar a recepção de suas reformas perante à população e, se possível, se legitimar para continuar o processo de perpetuação no poder. Seu partido, o governista AKP buscava uma meta ambiciosa nesta eleição: ganhar 330 cadeiras ao menos, e 367 para o melhor dos cenários. Esse quadro possibilitaria reformas constitucionais com aprovação automática devido à ampla maioria cultivada. As reformas visavam sua perpetuação no poder, como todos sabem, uma obsessão pessoal de Erdogan.
Principais partidos:

AKP (partido da Justiça e Desenvolvimento)
CHP (Partido Republicano do Povo, o principal partido da oposição)
MHP (partido da Ação Nacionalista, de direita)
HDP (partido pró-curdo)

Distribuição de cadeiras na Assembléia Nacional Turca (atualizado com os resultados até a manhã de segunda-feira – 08/06/2015):
Partido  / Cadeiras
AKP    / 259
CHP   / 132
MHP /   80
HDP  /  79

Turkey-ELECTION

O AKP, perdeu três milhões de votos, em relação a 2011 e, ou seja, 70 cadeiras, longe da maioria absoluta a que estava habituado. Um duro golpe que talvez resulte em novas eleições em breve, para que o presidencialismo-parlamentarista tenha efeito prático.

Observando o mapa da distribuição partidária pela Turquia, podemos entender que não é mera coincidência que os votos à Leste se concentrem no HDP (Pró-Curdo) que aglutinou também várias demandas de minorias e tribos mais à esquerda do AKP, uma oposição preocupada com a Turquia, mas também com as fronteiras ocupadas pelas batalhas na Síria, no Iraque, com as políticas do Irã, com o leste europeu, enfim, uma agenda diversa da que une o eixo Ancara – Istambul. As últimas, com tradições e influencias europeias, mantém uma tradição progressista ocidental, de oposição ao AKP, por entender que dar de ombros ao Ocidente significa um retrocesso. As eleições serviram para equilibrar pouco melhor as visões de mundo e demonstrar a Erdogan que sua política nacionalista não detém aprovação de uma maioria consistente e absoluta. O mapa abaixo demonstra quantas fronteiras e influências existem nesse grande território, ponte entre Ásia, Europa e Oriente Médio.

TURQUIA MAP

O ponto mais sensível hoje na Turquia é o de sua “Islamização”. Podemos entender melhor a situação interna na Turquia através deste pequeno Texto que coloquei no site há algumas semanas. A Turquia conhecida por suas tradições laicas, está pendendo ao Islã Sunita, em vertente mais suave do que o Wahabismo saudita, mas ainda capaz de colocar as instituições em uma vertente teológica, comprometendo a percepção do Ocidente e, com certeza, prejudicando o fluxo financeiro e bélico ao país.

Erdogan terá que se reinventar, mas o cenário não é tão ruim como vem sendo dito na imprensa ocidental. Apesar de uma derrota prática e de uma expectativa reduzida à cinzas, o prospecto de seu próximo mandato é bom. Pode costurar uma maioria, ainda que fragmentária, já que os outros partidos são muito mais opostos em seus interesses do que o AKP sozinho. Não vejo como HDP e CHP por exemplo poderiam formar uma aliança com agendas tão distintas, mas posso ver alguns projetos do AKP recebendo apoio de parte do MHP. Ou seja, apesar das dificuldades de articulação, comum aos sistemas democráticos multipartidários, a política turca sai mais forte deste teste eleitoral.

Felizmente Erdogan não será um imperador otomano. Apenas mais um governante, incapaz de alterar o Estado, apenas seu governo. Para o bem da Turquia.

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