TURQUIA – DÚBIA POLÍTICA INTERNA E SEUS REFLEXOS NO EXTERIOR

A Turquia é, sem dúvida, um dos mais importantes atores do Oriente Médio, assim como um dos mais importantes atores europeus. Parece dúbio, mas enquanto a prática dita que ela represente o legado Otomano para o mundo, a teoria a coloca em meio a turbilhões diversos, envoltos nos dois mundos.

A política interna turca é, geralmente compreendida como um pêndulo, que ora vai de secularistas burocratas moldados na democracia Ocidental, ora para o lado extremista religiosos, moldado nas tradições islâmicas e que busca a Shariá como código de vida em sociedade.

A verdade é que nossa compreensão se limita à percepções. Alguns argumentam que os turcos rumam ao extremismo, abandonando aos poucos os valores democráticos que abraçaram com o final do Império Otomano no pós primeira guerra mundial. Estes, esquecem-se que há muito pouca democracia de fato por lá, já que a média foi de um golpe por década por parte dos militares (1961,1971,1980) e em 1997, quando um golpe definido comumente como “pós-moderno” (pela ausência de governo militar e sangue) derrubou o primeiro governo islâmico turco desde o Império Otomano.

O Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), assumiu o poder em 2002. Sua matriz história é a junção de vários partidos conservadores e alguns islâmicos, o que reputou o governo de Recep Tayyip Erdogan como uma tentativa não declarada de levar o pêndulo turco ao islamismo como política de estado. No entanto, historicamente, a Turquia prioriza a aproximação com a União Européia e o Ocidente, servindo várias vezes à OTAN e aceitando uma série de condições para que seja “aceita”. O sonho maior é pertencer à União Européia como membro de fato.

No entanto, os mecanismos de política interna na Turquia são curiosos e dúbios também. A melhor explicação que encontrei na literatura (IAPSS especialmente) é que o molde de democracia não serviu para deixar tudo perfeitamente alocado, sejam as instituições, sejam os costumes, as fontes de legitimidade não foram capazes de atuar em plenitude. Portanto, nossa leitura da Turquia deve passar por uma terceira forma de regime, algo como um híbrido entre autoritarismo (que fecha jornais, censura periódicos e programas) e uma democracia iliberal, fruto de um hábito Otomano de estar sujeito ao comando central (no qual sempre faço um paralelo com os Russos).

A personificação do poder é evidente em cada troca de regimes e em cada ação que ocorre na era pós-Império Otomano. Hoje a Turquia é absolutamente moldada pela personalidade de Erdogan. Ela desfruta de instituições tidas como democráticas, mas que podem “direcionar” seus interesses e ações de acordo com a vontade do mesmo. Esse quadro gera uma limitação dos dissidentes e críticos, que quando vão para ação rumo ao poder, o fazem através de golpes e esquemas anti-democráticos. São combatidos em retorno da mesma forma. Portanto, podemos entender que não há uma transição tranquila e democrática por lá, com o reconhecimento formal do sistema político. Com políticas de Estado maiores e mais duradouras do que políticas de governo. O personalismo torna tudo dubio. Políticas de alinhamento com o Ocidente são a regra, mas um golpe em direção ao islamismo extremista pode alterar décadas de conquistas institucionais e internacionais.

O poder interno então se divide entre uma classe de governantes autoritários e outra de uma oposição golpista.

Em 07/06/2015 teremos eleições gerais por lá, algo que pode redefinir o rumo ou manter as coisas como estão. Hoje, o espaço de aceitação da Turquia no Ocidente é reduzido, e a distância para que ela entre na União Européia é cada vez mais abismal. Uma corrente de acadêmicos (britânicos em maioria) entende que a aproximação com a Europa é fundamental para que se mantenham os laços político-econômicos e os interesses da OTAN na região.

A posição estratégica da Turquia é, em todos os sentidos, fundamental. Uma outra corrente entende que há um dilema de segurança extremo em permitir o livre-trânsito em um território que engloba Europa e Ásia, sendo a maior porta de entrada / saída cultural do mundo.

TURQUIA - Wiki

Fonte do mapa: Wikipedia.

Agora vamos analisar um pouco de que forma a Turquia lida com as questões do Oriente Médio.

Seu maior problema imediato são os Curdos. Curiosamente, uma facção deles está sendo armada para lutar contra o Estado Islâmico, ou seja, dispõe de recursos para uma futura agressão. Abaixo temos uma idéia do que seria a união dos Curdos, fragmentados pelas fronteiras ao redor. A preocupação turca é justamente a perda territorial e o volume de combatentes que estariam em jogo (os Curdos estão espalhados em vermelho).

Curdistão

Isso talvez ajude a explicar a pouca resistência que a Turquia oferece aos combatentes que se alistam ao Estado Islâmico e cruzem suas fronteiras, mesmo com todo apelo internacional. Barrar esses combatentes significa custear a estadia em julgamento, deportação, etc. A fronteira aberta é um convite à desestabilização da Síria, do Iraque, do Irã, enfim, torna o balanço de poder na região problemático.

Como vimos no texto sobre o Iêmen, há uma disputa grave em andamento para decidir quem influencia mais a região, se Arábia Saudita ou Irã. Em meio a essa disputa, a Turquia com certeza assumirá o apoio à Arábia Saudita e sua coalizão, visto que tradicionalmente possui bons acordos com Jordânia, Egito e Israel. O Irã é a antítese do ideal de fundação da Turquia.

Se analisarmos o Oriente Médio sob a ótica de três potência étnicas diferentes, temos um tabuleiro mais complexo em andamento.

Turquia (Otomanos) – Muçulmanos em maioria, mas com um Estado ainda secular. Desfruta de bons relacionamentos e acordos com os árabes, além de uma grande recepção Ocidental. No entanto, limitados pela dúbia situação interna, que às vezes se descontrola;
Fator Desestabilizante: atua na região através da desestabilização dos Curdos, mantendo o interesse em manter os conflitos longe de seu território e aproveitando para perturbar a ordem na Síria e no Iraque.

Arábia Saudita (Árabe) – Protegida pelos EUA e com predominância de recursos econômico-militares, é um Estado dominado pelo ramo Sunita radical, com a aplicação explícita da lei islâmica (Sharia) de acordo com seu entendimento. Para esclarecimentos, LINK.
Fator Desestabilizante: Financiamento de milícias sunitas e intervenção militar direta.

Irã (Persa) – Atualmente não alinhado com o Ocidente e próximo de China e Rússia, dominado por uma teocracia xiita que já declarou sua intenção de varrer Israel do mapa, mas também recuou desta postura tão ofensiva, e aceitou negociar termos para o acordo nuclear. Há muito mais em jogo do que retórica, visto que os persas possuem armamento de alcance regional e poder de fogo consideráveis.
Fator Desestabilizante: Financiamento de milícias xiitas, via Hezbollah e Houthis.

A vantagem prática hoje é a coalizão da Liga Árabe, Arábia Saudita e Conselho de Cooperação do Golfo, que detém junto a aliados diversos do mundo Árabe, os EUA e o Ocidente. A Turquia, portanto, naturalmente se alinha a este grupo, deixando ao Irã somente a alternativa de levar os confrontos para longe. A desestabilização de países mais fracos na região é a arma mais eficaz. A pressão de Rússia e China no Conselho de Segurança da ONU veta medidas mais incisivas, e hoje, de fato, nenhum Estado está plenamente pronto para assumir os custos de uma guerra.

A Turquia é o pêndulo. Se um golpe ocorresse e facções islâmicas tomassem o poder, tudo poderia novamente mudar. O apoio otomano é fundamental, e seu peso ainda ecoa na península arábica, como ocorria séculos atrás.

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