ANÁLISE DOS RESULTADOS – ELEIÇÕES NO IRÃ – 2017

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Como é de praxe, uma breve explicação sobre os resultados eleitorais no Irã em 2017. Apesar de a análise fria dos números traduzir a realidade simplista de continuidade dos reformistas, personificados em Hassan Rouhani, a análise prática traz significados sempre mais complexos a respeito das dinâmicas internas de um país tão controverso.

Pesar de Rouhani pertencer a uma ala bem moderada dentre os Clérigos, ele ainda é um deles. Não podemos dissociar a influência da teocracia xiita sobre todos os aspectos da vida política do Estado Iraniano, já que muitos tendem a “idealizar” o reeleito presidente como um elemento de ruptura do radicalismo de Ali Khamenei. De fato, ele não é o candidato favorito de Khamenei, o derrotado Ebrahim Raisi, e eis ai a diferença: Rouhani é o mais moderado dentre os radicais.

Em seu discurso da vitória, alguns pontos merecem destaque (reportagem disponível aqui):

Nossa nação deseja viver em paz e em amizade com o mundo, mas ao mesmo tempo, ela não aceitará qualquer ameaça ou humilhação”.

Este trecho é uma clara referência à Trump e sua ideia de revisar a suspensão das sanções econômicas. Além do mais, as eleições iranianas ocorrem junto ao fechamento de uma venda recorde de armamentos por parte dos EUA aos sauditas, na ordem de U$ 110 bilhões.

Vejam que número U$ 110.000.000.000,00!!!

Esse item é uma mensagem clara de apoio. Há todo um simbolismo na visita externa do presidente dos EUA, e o destino ser a Arábia Saudita, indica a preferência por um aliado e parceiro. Esse é assunto do próximo texto. Ao final deste, colocarei links aqui do blog mesmo onde essa disputa já foi tratada. O complexo xadrez Arábia Saudita, Síria, Irã, Turquia e Israel.

Voltando ao Irã, temos que analisar algumas óticas que ditam as posturas dos clérigos xiitas na condução da teocracia. A ala mais dura, capitaneada pelos preferidos de Khamenei se dividem nos partidos CCA e ICP (siglas em inglês, mas na tabela abaixo traduzi os resultados e partidos para melhor visualização). Essas duas siglas são distintas entre si apenas pela tradição, e ambas preferem o embate à negociação. Optariam pelo dilema de segurança e a famosa dissuasão pelo medo, através de ameaças e escaladas tensas, capazes sim de criar um conflito de médio / longo prazo com Israel por exemplo. Não podemos esquecer quando Ahmadinejad (presidente de 3 de agosto de 2005 a 3 de agosto de 2013) destilava antissemitismo em seus discursos. Pertenciam ao partido ultraconservador Abadgaran, que abraçava e concentrava esses ideais dos clérigos mais radicais.

A ala mais moderada pertence a clérigos com visão multidisciplinar, que vislumbram participação maior no mundo e compreendem a posição iraniana, extremamente dependente de uma economia baseada em Petróleo. Estes compreendem que nenhum Estado pode mais existir sozinho e com dignidade no Sistema Internacional. O Estadão de hoje traz um infográfico importante, reproduzido abaixo na íntegra:

Infográfico Estadao (21052017)

Tudo isso subsidiou os resultados abaixo:

Eleicao

Lá, diferente daqui, as pesquisas também tiveram sucesso em ler a realidade pré-eleitoral:

Opinion_polling_for_the_Iranian_presidential_election,_2017

Mas como nem tudo são flores, o apoio ainda não é tão maciço quanto supõe a frieza dos resultados. O reeleito Rohani terá que lidar com uma agenda complexa:

Nível Doméstico:

  • Melhorar os indicadores de emprego (desemprego hoje é 12,5%  – 27% entre os jovens);
  • Reequilibrar a ainda alta dívida pública;
  • Melhorar a imagem do governo para população em geral, já que foi acusado de governar para os 4% mais ricos e privilegiar o ganho financeiro;
  • Trabalhar de forma enérgica para reduzir a dependência do petróleo;

Nível Internacional:

  • Reduzir a desconfiança cada vez maior para com o propósito do projeto nuclear;
  • Equilibrar as percepções e administrar as relações com Israel, Turquia e Arábia Saudita;
  • Trazer Trump e Putin para um equilíbrio independente, através da inserção chinesa;
  • Administrar pela cooperação multilateral;

Um Irã estável, é um Oriente Médio fortalecido.

Não vou analisar aqui a participação dos conflitos regionais no Iêmen e a participação da Guarda Revolucionária no cenário iraquiano, pois serão temas de textos futuros e não influenciaram o resultado.

Para saber mais:

FINALMENTE UM ACORDO SOBRE O IRÃ – I 

FINALMENTE UM ACORDO SOBRE O IRÃ – II – SOCIEDADE CIVIL E PERCEPÇÕES

O CÁLCULO SAUDITA E UM NOVO ORIENTE MÉDIO

COMO O IRÃ FORTALECE O TALEBAN?

 

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BRASIL – Atualização Política (19/05/2017)

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Primeiro o pedido de desculpas de Joesley. Famoso Mr. JBS:

“Erramos e pedimos desculpas.

Não honramos nossos valores quando tivemos que interagir, em diversos momentos, com o Poder Público brasileiro. E não nos orgulhamos disso.

Nosso espírito empreendedor e a imensa vontade de realizar, quando deparados com um sistema brasileiro que muitas vezes cria dificuldades para vender facilidades, nos levaram a optar por pagamentos indevidos a agentes públicos.
Ainda que nós possamos ter explicações para o que fizemos, não temos justificativas.
Em outros países fora do Brasil, fomos capazes de expandir nossos negócios sem transgredir valores éticos.

Assim construímos um grupo empresarial gerador de mais de 270 mil empregos diretos, com times extraordinários e competentes, que operam 300 fábricas em cinco continentes e oferecem mundialmente produtos de qualidade.

O Brasil mudou, e nós mudamos com ele. Por isso estamos indo além do pedido de desculpas. Assumimos aqui um Compromisso Público de sermos intolerantes e intransigentes com a corrupção.

Assinamos acordos com o Ministério Público. Concordamos em participar de alguns dos mais incisivos mecanismos de investigação existentes e nos colocamos à disposição da Justiça para expor, com clareza, a corrupção das estruturas do Estado brasileiro.

Pedimos desculpas a todos os brasileiros e a todos que decepcionamos, que acreditam e torcem por nós.

Enfrentaremos esse difícil momento com humildade e o superaremos acordando cedo e trabalhando muito.

Joesley Batista”

E depois desta piada pronta, a única coisa que tenho a dizer é:

Desculpas NÃO Aceitas menino Joesley.

Após ouvir os áudios ontem, que aliás comprometem muito menos Temer do que o esperado, já que o seu crime exposto é a conivência com um projeto criminoso exposto pelo nosso amigo Joesley, e por isso ele deve sim ser retirado da presidência, a JBS precisa ser punida mais duramente. Temer é um bunda mole mesmo e merece ser retirado pela sua incompetência em articulação política, assim como sua antecessora. Calheiros não aceitou o encontro pois é de uma safra mais safa, sabia que ia sobrar… Não é menos criminoso por isso, só é esperto, deve ter estudado Maquiavel.

Dos áudios, o que sobra é a exposição de membros do judiciário (procuradores e juiz) que estariam sob controle do brother Joesley. Como diria Chapelein: “Quem são? Quais seus Nomes? O que fazem? Como procedem? – Hoje no Globo Repórter…”

Só que essas perguntas estão bem protegidas nos EUA, no bolso do nosso parceiro Joesley com a conivência do MP, que cobrou uma bagatela revertida no caos do câmbio ontem mesmo. Uma compra assombrosa de dólares com a devida antecedência, garantiu que na correção do câmbio a JBS não perca 1 centavo.

Curioso notar que poucos estão exigindo a cabeça de Joesley. Cometer crimes financiados pelo BNDES e, consequentemente pelo Estado, mamar com o nosso dinheiro, migrar tudo para o exterior e jogar as coisas no ventilador não pode garantir nada a esse animal. Ele precisa é de cadeia mesmo, não de acordos. Ele é que desponta como o maior criminoso nas gravações, aquele que mantinha o controle da situação e as pessoas em seu bolso.
As gravações ainda possuem vários cortes e pontos inaudíveis, ainda passíveis de perícia para comprovar que não foram editadas. Mas o mano Joesley diz cristalinamente o que tem nas mãos.

No mínimo a JBS deve devolver o dobro do que tomou emprestado, com juros e correção, além da cabeça de seus executivos.

Já Aécio é um bandido mesmo, daqueles de 5ª categoria. Qualquer um que advogue em seu favor é cúmplice. Tem imagem, gravação, replay, slowmotion, legenda, foto em Full HD e novos vídeos em 4K. Impossível argumentar.

 

BRASIL – Atualização Política (18/05/2017)

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Infelizmente o caos no Brasil nos força a trazê-lo ao site. Tentei manter os temas globais em evidência, mas como ignorar o momento do meu País? Após a divulgação, pela JBS, de todos os áudios e dados, e de ameaçar 1890 políticos com uma mega delação, só me resta um simples desabafo.

Deixai toda esperança, ó vós que entrais.” (Dante, Inferno)
Algo deve mudar para que tudo continue como está” (Lampedusa)

A citação de Dante é o que deveria abrir nossa Constituição. Semelhante ao Inferno, o cenário é caótico e triste. Por mais que almas mesquinhas sintam prazer enorme em constatar a falência do modelo público e democrático que o Brasil alimenta, a tristeza é que tomará conta das nobres almas, quando se derem conta de que estamos caminhando pelo Inferno sem a brilhante figura de um Virgílio. O poeta maior foi necessário como um guia ao bom Dante, quando dizia:

Livra-te desse medo circunspecto;
Aqui toda tibiez esteja morta;
Que chegando ora estamos ao conspecto
Das tristes gentes das quais já te disse
Que têm perdido o bem do intelecto”.

Esse papel nunca caberia a uma pessoa. Caberia às Instituições. Afinal de contas, Hobbes tinha razão quando temia a natureza humana. Que é o homem se não um amontoado de paixões insólitas a se mover de um lado para o outro, como um zumbi utilitarista?

Na prática, hoje não tivemos uma novidade. Tivemos sim a chance de analisar alguns focos novos na sociedade.

Grampear e divulgar áudios de presidente da República é errado? Sim ou Não? (eu, pessoalmente apoio a transparência).

Delação premiada é aceitável? É possível confiar em delações? (eu, pessoalmente acho que sim, desde que conduzida por evidências e, de preferência, provas).

Lembre-se, você não pode ter 2 pesos para mesma medida. Caso isso ocorra, você é só um hipócrita que funciona como joguete de um time de futebol qualquer.

A Política é uma arte nobre. Os políticos são subproduto da população que os dirige. Eu também acredito que todo o poder emana do povo, afinal, quem elege? E no entanto o que temos hoje é uma disputa muito simples. Responda honestamente consigo mesmo:

“OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS?”

Caso sua resposta seja positiva, você não é de esquerda ou de direita, é só um amoral ou até um imoral, cuja ética inexistente mancha a própria conduta. Está em absoluta consonância com os atos que condena, ou seja, é parte do processo.

Caso sua resposta seja negativa, há esperanças. Aí você pode tentar conduzir sua realidade de forma plena. Mas precisa ser honesto o suficiente para entender se não é um raciocínio de momento. Ética e moral não são variáveis, não são justificáveis e não são moldados pela realidade. Elas moldam a realidade. Ou as tem, ou não as tem. Suas qualidades sim podem ser discutidas.

Vamos supor um milagre. Todas as lideranças de PT, PSDB e PMDB são afastadas, eleições indiretas convocadas. Quais as lideranças no legislativo?

Em 2018, nas eleições presidenciais, imagine um cenário sem caciques. Qual a liderança nova que trará ar fresco e tentará reconquistar corações e mentes? Quem será o Tite da política brasileira? Ninguém.

Eis a armadilha.

Na cassação da chapa Dilma/Temer (e se você acha que votou na Dilma e não no Temer, pense melhor. Você votou na chapa e escolheu o pacote. Infelizmente é a dura realidade. É como uma boia do Titanic, laranjinha, com duas pessoas abraçadas nela. Não dá para escolher.

1) Dilma teve requisitada a cassação de seus direitos políticos por sete anos, enquanto Temer apenas o afastamento, que o permitiria retornar pela eleição indireta. Ele poderia, portanto, renunciar agora e ser legitimado pelo Legislativo. Essa opção existe e não é uma chance pequena.

2) Aécio está enterrado. Precisa ir cheirar seus assuntos em local mais reservado, pois se já não tinha qualidade para ser Presidente, agora carece de legitimidade.

São mais de 1800 políticos na delação da JBS. Todos os caciques estão envolvidos, pois a negociata política exige uma troca de favores na escalada para o poder. Dinheiro é fator preponderante nas eleições, é só observar o nível de gastos para cada candidato eleito. Financiamento público? OK, mas será então que não existirá um caixa 2? Caixa 3? Dinheiro no exterior bancando gente graúda? Ora, sem inocência.

Os políticos não são o reflexo da sociedade que os elegeu. Eles conseguiram criar uma barreira de ignorância tão grande, tão absurda, que dividiram a população enquanto se abraçam e se defendem como corporação. Percebam as inúmeras fotos de Dilma, Temer, Lula, FHC, Aécio, Alckmin, etc.

Onde vocês veem divisão, eu vejo união.

Como resolver? Eleja candidatos novos. Por pior que eles sejam, não podem ser muito piores do que os atuais….

“E essa história de gestor na política?” muito antes dos EUA, o Lula vendeu a Dilma como gestora… Muito antes de Dória, a Dilma seria nossa gerente. Lula é bandido? Claro que é. Temer e Aécio? Também. Percebam que é o banditismo que os une. Eles vão tentar acirrar ainda mais os ânimos, dividir mais a população entre si mesma, mas não vão deixar de se amar em segredo, jantando juntos e planejando o futuro.

Mas eu não tenho dúvidas, que deste caos, teremos salvadores diversos. Lula é um deles, com aquele tom messiânico e jeito forjado de homem simples. Uma ofensa ao trabalhador honesto do cotidiano. Bolsonaro (?) é outro, que insistirá em endurecer o discurso para mobilizar aquelas mentes fracas que acreditam na violência como solução. E quem sabe ainda não pinta um FHC ou Dória?

Mas depois de tudo isso, lembro a todos que:

Algo deve mudar para que tudo continue como está” (Lampedusa)

Ou seja, corremos o horrendo risco de nos atormentarmos em emoções e paixões, e ao final, nada mudar de fato, seguindo a tônica corrupta que nos abraça desde Deodoro.

Tenhamos parcimônia na renovação através da eleição. Que todos sumam da vida pública pelas mãos do voto.

Imagem do início do post disponível neste link.

ORIENTE MÉDIO, TERROR, LOBOS e CAOS – Mundo hoje (Julho/2016)

É terminantemente impossível traçar assuntos sobre Oriente Médio e terrorismo sem que as conjunturas se amarrem, retorçam, abracem e passem a se repelir constantemente. Dado este fato de intransigência real por parte da história, que insiste em nos atormentar e apimentar a realidade com complexidades variadas, este texto é um apanhadão para que as evidências se tornem pouco mais tangíveis ao leitor pouco familiarizado com as intrincadas e fragmentadas disputas locais de alcance global.

A parte fácil é: Não é possível estabelecer relevância entre os temas.

A parte difícil é: Não é possível delimitar inicio e fim de todos estes mesmos temas.

Enfim, vamos começar pela Turquia (Já abordada aqui e aqui). Os turcos enfrentaram, no dia 15/07/2016, um anoitecer épico. Desenhou-se um Golpe de Estado, onde setores militares descontentes tentaram tomar o poder. Reza a lenda que os militares turcos resguardam os valores laicos e seculares implantados na dissolução do Império Otomano, a partir de 1918. Na prática, alguns setores militares se rebelaram enquanto outros setores militares foram contra. O resultado foi desencontro e uma pitada de bom senso que evitou um enorme derramamento de sangue civil.

Os civis foram para as ruas, atendendo os apelos de Erdogan. Os militares que arquitetaram o golpe não atiraram, os soldados não conseguiram matar sua própria população por um ideal tão fraco, uma vez que a Turquia não estava sob ameaça real de existências. Sorte de todos nós, pois a importância estratégica turca é fundamental para segurança do globo.

Como já abordado em outros textos, o fato preocupante ao final, é que as aspirações totalitárias de Erdogan foram catalisadas com o processo do golpe. O clima de insegurança e a brecha institucional permitiram a implementação de um Estado de Emergência, com inúmeros militares presos, rivais políticos ameaçados, julgamentos sem defesa, enfim, uma série de medidas que empoderaram o mandatário e enfraqueceram as instituições democráticas.

Tal foi o ponto que, no último domingo, 24/07/2016, manifestações públicas enormes foram convocadas por partidários de esquerda, centro e centro-direita, na tentativa de deixar uma mensagem clara à Erdogan: “NEM GOLPE DE ESTADO, NEM DITADURA!”, como pode ser conferido neste link e neste outro link.

Ópera resumida, fica a questão: De onde surgiu essa tentativa de golpe? Dentre muitas especulações, a minha favorita é: Rússia !!

turkrussia

Desde o episódio do caça, as relações ficaram difíceis. Talvez difíceis o suficiente para que Putin conseguisse convencer setores amigos dentro dos militares e destruir vários coelhos com esta paulada:

  • Desestabilizar Erdogan = Estabilizar um aliado no Golpe;
  • Estabilizar um governante aliado = Cooperação mais fácil;
  • Cooperação mais fácil = Aumento na influência político-econômica;
  • Aumento na influência político-econômica = cooperações diversas em vários níveis;
  • E tudo isso com o bônus de ter em seu poder uma das maiores e melhores bases / equipamentos / contingentes da OTAN.
  • OTAN que absolutamente é o fator mais difícil para Putin aceitar.

Enfim, só há benefícios aos russos. Isso os coloca automaticamente na posição #1 na lista de causa provável, de maior beneficiário, de interesse direto.

No entanto quando pensamos em Turquia, devemos olhar um quadro também amplo, conforme divulga o excelente site Statista:

statista

Golpes e tentativas de golpe na Turquia desde 1960; foram 5, já contando este último da semana passada. A presença militar na política interna turca é endêmica, complexa e abrangente, como uma teia. Podemos ter presenciado a morte da Turquia de Attaturk, e a consolidação da Turquia de Erdogan:

Aftermath of an attempted coup d'etat in Turkey
EPA/SEDAT SUNA

Sabe-se Deus quanto tempo vai durar a confusão institucional turca, mas parece que a sociedade civil organizada não tolerará um avanço centralizador ou teocrático. No entanto, questiono a capacidade da população, quando dentro do processo, de vislumbrar o que de fato ocorre. Se Erdogan minar a legitimidade institucional e legitimar uma centralização decisória, qual será a capacidade de reação social quando o exército e demais forças estão divididos e enfraquecidos?

Ok, sem divagar muito, esta foi a atualização da Turquia. Vamos ao terror.

Apesar dos grandes atentados ocorrerem no Iraque, no Sudão, na Síria, e em demais países ás centenas por ano, com milhares de mortos, a atenção do Ocidente reside em seu umbigo. Na mesma semana de Nice, tivemos centenas de mortos no Iraque em um carro bomba. Vidas valem mais do que outras? Claro, quando atingem o seu espectro social (eu não concordo com isso, mas não posso ser hipócrita de achar que as pessoas consideram que um cidadão morto em Burkina-Fasso cause a mesma dor da morte de seu vizinho). Somos animais políticos, e animais sociais.

Além de tudo, o que causa espanto atualmente é a quantidade de lobos solitários agindo. Saudades de quando um lobo solitário pertencia apenas a Hollywood ou Mangás.

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Infelizmente, nossos lobos solitários de hoje causam um temor particular: são praticamente indetectáveis pelas agências de segurança e inteligência, pois são quase invisíveis em meio a uma multidão ordinária de transeuntes. O lobo solitário, o psicopata da vizinhança, aquela pessoa estranha que todos conhecemos e que pode ser potencialmente perigoso, escapa a qualquer verificação comum. Infelizmente, sofrem não só de uma anomalia mental, sofrem também de um distúrbio social sério, que vislumbra mudanças com sangue. São sociopatas.

Seja por simpatia à causa ou por identificação pessoal, o lobo solitário inflige um terror particularmente cruel: ele não possui raça, etnia, distinção social que o caracterize. Temos um cidadão alemão, de descendência iraniana abrindo fogo em um shopping center em Munique (22/07/2016), por que? Motivação? Ninguém sabe, mas é um tipo de terror que não permite impor etiqueta de identificação ou caracterização fácil.

A Europa e os Estados Unidos são alvos fáceis para esta modalidade, pulverizada e efetiva em impor o terror. Considerando o excelente mapa feito pelo Telegraph (UK), temos que várias regiões possuem um alto risco de ataques:

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E quando olhamos no panorama localizado em Norte da África, Oriente Médio e Europa, temos uma ideia do risco global e generalizado que as inspirações do terror geram. O que nos leva a um questionamento e ao próximo tema. O medo do terror pode mudar as concepções de soberania e comportamento? SIM! Prova? BREXIT !

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com 51,9% dos votos, o Reino Unido deixou a União Europeia através de consulta popular (final de junho). Uma análise apurada dos números mostra que  Londres, cidade cosmopolita e capital composta de muitas etnias diversas, acostumada à miscigenação, votou contra a saída, por entender os riscos desta medida. Já os conservadores, mais velhos, acostumados à ideia de que “good fences make good neighbours” (boas cercas fazem bons vizinhos), ou seja, uma relação íntima entre controle, fronteiras, imigração e presença estrangeira = segurança, votaram a favor da saída.

Impossível não ligar esta decisão à crise dos imigrantes sírios e de outras partes da África e do Oriente Médio que buscam uma vida mais digna no Oásis Europeu.

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Curioso constatar a repulsa de grande parte dos europeus e  o recrudescimento inicial em relação à estrangeiros ameaçarem seu Welfare State. Claro que Alemanha e França buscaram, em sua liderança, coordenar os esforços junto da Grécia e de outros Estados, limitando quantidades, mas oferecendo o auxílio possível.

Mas de boas intenções, o inferno está abarrotado… Fato é que uma injusta política de repelir imigrantes toma conta do continente europeu, e especialmente dos ingleses. Cameron jamais concordou com qualquer medida ou acordo que fizesse o Reino Unido receber imigrantes, especialmente sírios. Me atrevo a dizer que, se não houvesse derrubada de Saddam Hussein em 2003 (contribuição direta da Inglaterra, aliás), não haveria refugiados sírios hoje.

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Mas Karma é coisa de Hindu, também ex-colônia… by the way…

E com o Brexit, vou emendar um penúltimo tema importante, presente em facebooks por todo o mundo. A ideia de que o Islã é o causador do terror. Ideia que combato com veemência, mas que vem dominando corações e mentes no Ocidente.

Por que discordo? Porque o religioso não é a religião. Nem todo católico é pedófilo ou corrupto de banco (aliás, uma extrema minoria criminosa o é), e nem todo muçulmano é terrorista. Aliás, as maiores vítimas do terror são os muçulmanos. Não sejamos rasos em nossas respostas, buscando simples fatos em questões muito mais complexas.

Muitos desmiolados se digladiaram no passado pela Terra Santa, com argumentos muito parecidos com os utilizados pelos terroristas de hoje… E a linha do tempo do facebook se inunda de imagem de templários, de pessoas imaginando uma guerra Oriente x Ocidente, entendendo que uma religião causa mal ao mundo:

E, no entanto, estamos no século XXI, com entendimento e educação capazes de demonstrar que a manipulação de algumas massas para fins religiosos de salvação ocorre em várias crenças, esferas, fatos… E quando o líder é budista e visa exterminar muçulmanos? (link, link, link). Não vi cruzadas contra budistas… Nem charges que justificassem o ato.

Caro leitor e amigo, não espalhe violência gratuita. A religião é o que as pessoas fazem dela. Templários matavam em nome de Deus e de Jesus, no entanto eu ainda não encontrei uma mísera linha no novo testamento que consiga justificar este tipo de comportamento animalesco.

Qual foi a percepção dos muçulmanos que conservaram grandes pensadores ocidentais de nossa própria barbárie?

E eis o último tema, ainda em desenvolvimento por vários meses próximos, as eleições americanas! Por enquanto o “azarão” Trump surfa na onda de contramedidas ao terror, incitando a população, inflamando um nacionalismo cego e hostil ao mundo. Ameaçando sair da OMC e murar a fronteira com o México. Hillary Clinton parece não ter levado a sério o suficiente a candidatura de Trump, mostrando-se despreparada na argumentação e perdendo importantes pontos de credibilidade com sua atuação utilizando e-mail pessoal como Secretária de Estado.

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Fato é que o “momentum” é todo de Trump. Caso não haja um escândalo sério ou reviravolta absurda, ele será o fanfarrão novo presidente da maior potência do globo. Que fase heim !!

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Termino o apanhadão de Julho com uma citação de Avicena:

O conhecimento de qualquer coisa, dado que todas as coisas tem causas, não é adquirido ou conhecido por completo a menos que seja conhecido por suas causas” – Avicena

E AGORA ARÁBIA SAUDITA?

 

Nota Arábia

Essa pequena nota está colocada bem escondidinha na versão traduzida do “The Wall Street Journal” disponível neste (LINK).

Ela é importantíssima pois demonstra algo que muitos analistas não levam em consideração: ‘países exportadores de petróleo passam por dificuldades financeiras‘. Como? Não faz sentido algum, afinal, com todo o discurso e toda retórica contra os combustíveis fósseis, somos absolutamente dependentes de petróleo para qualquer matriz energética eficiente nos Estados do planeta.

Ok, a dependência mundial diminuiu desde as crises do petróleo (basicamente as de 1973 e 1979), com a diversificação das matrizes energéticas, o descobrimento de novas fontes pelo planeta, a atuação mais independente de alguns Estados e, acima de tudo, com a conscientização global de que energia impacta o meio-ambiente, então, a racionalização do uso.

A queda no preço do petróleo é abrupta e evidente quando observamos o gráfico:

Preço do Barill de Petróleo estipulado pela OPEP

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Fonte: Statista

Os preços voltaram quase 13 anos no tempo, mas sem a devida correção inflacionária do período. Claro que os produtores, especialmente Venezuela, imploram à OPEP que fixe o valor do barril em patamares maiores, que garantam maior lucratividade. A Arábia Saudita, por outro lado, evitou e segurou ao máximo a cotação do barril em baixa, para deliberadamente causar déficits e problemas nos seus vizinhos. Por que?

Como já dito em textos anteriores, há uma dinâmica em centrífuga ocorrendo dentro do Oriente Médio, com pequenos polos de poder que se polarizam  fragmentam em batalhas localizadas, voltadas à influência regional. Os gastos da Arábia Saudita vem sendo maciços em equipamentos militares, armas e treinamentos, justamente para combater o Irã. A idéia saudita era que, com o embargo, os persas sentiriam muito o peso do barril barato e não poderiam se consolidar na região como uma potência. Cálculos mal feitos em política internacional sempre resultam em algo perigoso…

 Com a suspensão das barreiras ao Irã e o retorno do fluxo comercial àquele país, a tendência é de fortalecimento e diversificação comercial, enquanto aos sauditas, resta o déficit e a necessidade de auxílio internacional. Não é uma situação caótica, ou algo que vá mudar o brutal regime de Riad, mas há sim uma tendência de encolhimento quanto a participação externa, especialmente no Iêmen e na Síria. Um conflito contra o Irã apresenta-se muito custoso.

Agora o preço do petróleo está subindo, favorecendo todos os que dele dependem em maior ou menor grau. Aos sauditas e aos iranianos, é interessante o quadro futuro. Ao Oriente Médio, é um quadro frágil e perigoso, envolvendo regimes cujo poder de decisão é muito centralizado, sujeito, portanto, aos humores de clérigos, Aiatolás e Reis.

Claro que nunca é demais projetar que, no instante em que a corrida armamentista (e ela acontece no Oriente Médio e na Ásia, hoje) entrar em descompasso, com algum dos lados evoluindo pouco mais do que os outros ou com a intromissão externa, a evolução do quadro tende a ser um conflito de proporções drásticas na região, invocando inclusive um pano de fundo que envolverá Rússia, Estados Unidos e Israel.

Enfim, torçamos para que os regimes encontrem a paz, ainda que temporária e instável. A ajuda internacional com empréstimos e financiamentos em troca do petróleo garantido virá com certeza, e a despeito de financiar uma das ditaduras mais sanguinárias e cruéis do mundo, os Estados Unidos continuarão a manter sua representação intacta entre os sunitas e entre os Aiatolás persas (xiitas). Quase uma proeza em comparação ao estrago feito por Bush Jr.

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WHAT CAN BE EXPECTED FROM VENEZUELA?

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Venezuela means, today, state of chaos. Its economy is collapsing in firm terms and its population faces what can be considered as the first humanitarian crisis in an oil exporter State. Hugo Chávez administration (1999-2013) basically drained all the possible means to sustain his project of power.

It’s been a historical consensus that Venezuela’s dependency on Oil is also its biggest weakness over the past governments, because, instead of using the income from the Oil selling to build a national industrial complex and start producing its own goods, developing technology, research, etc, Venezuela kept using all the income to import everything needed.

This double-dependency scenario (selling Oil to buy everything, while producing almost nothing) works well when the Oil Barrel is expensive. Exactly what happened during Chávez administration as we can see below:

1 – Average annual OPEC crude oil price (USD/barrel)

Oil

Source: LINK

Chávez was able to sustain a Welfare-like model of macroeconomic administration, focused on fighting the social inequality by directly financing projects in Caracas and other cities. Of course one of the conditions to have everything settled was the maintenance of power at all costs. Chávez always empowered himself as a self-denominated savior, which could bring prosperity to Venezuela.

Like many other dictatorships, he was careful enough to revive what could be considered a national symbol, at his own terms, Simón Bolivar’s memory in order to make a tangible hero against the oppression of the rulers. Unmistakably move, taken from Marxist level (such as the Dependency Theory of international politics) easily putting Venezuela as a victim, and also by that, justifying its means to a dangerously level of hatred spreading speech and aggressive acts towards its neighbors (Colombia and Guiana).

With Chávez death in 2013, Nicolás Maduro took his place, but without the ability to build himself an image like his predecessor. To sum up with the chaos that was the outcome of social convulsions and a tremendously hard-to-accept elections (referendum if you like better) Maduro has to deal with the drop of Oil prices in record time, leaving less and less income. As pointed out in an excellent article in Foreign Policy[1]:

The Chinese issue looms large. China’s loans to Venezuela — close to about $18 billion, according to Barclay’s – consist of short-term financing payable via oil shipments. As the price of oil collapses, Venezuela needs to ship more oil to China in order to pay them back. Barclay’s estimates that right now this is close to 800,000 barrels per day, leaving little more than a million barrels per day Venezuela can sell for cash

This is exactly the point. China has also secret terms agreements with Venezuela, not only related to Oil and cash, but also to security and regional interests. This whole scenario decreased the social conditions in Venezuela so much that regional elections in 2015 caused a mass defeat in the legislative for Maduro, meaning the beginning of the end. This end will surely come with a default, which will break the assets of the ones who profit with the high risks in Wall Streets and international markets.

The default is the answer now to start a new Venezuela. For sure that will be needed not only patience, but strong support from the international community to help rebuilding the economy and to demand a primary foundation from the next government. It is not only important, it is necessary for the sake of the future, that Venezuela can build its democracy and a good industrial base to prevent the Oil-dependency that has been ravaging the people since independency.

A stable Venezuela is important for South America to be secured against foreign intromission and for the region to grow together, without losing time (because money can be recovered) in fights and speeches.

[1]Venezuela Is About to Go Bust” BY Juan C. Nagel http://foreignpolicy.com/2016/02/05/venezuela-is-about-to-go-bust/

O CÁLCULO SAUDITA E UM NOVO ORIENTE MÉDIO

saudi

As atuais tensões no Oriente Médio são discutidas e exacerbadas em todos os veículos de comunicação que possuem algum interesse na região. Arábia Saudita x Irã tornou-se o conflito do momento, ofuscando as demais tensões, mesmo que momentaneamente naquela região. Quem acompanha o blog sabe que eu trato dessa rivalidade há algum tempo, sempre partindo da premissa de que o equilíbrio de poder na região é seriamente afetado a cada movimento expansivo de um dos grandes Estados da região: Irã, Turquia, Arábia Saudita e Israel.

Quando a Arábia Saudita condenou em massa alguns religiosos e oposicionistas à morte (e o uso da pena capital por lá é bastante comum), ela já sabia das reações que seriam causadas quando um clérigo xiita fosse decapitado (Nimr Baqir al Nimr). Era razoável depreender que a execução de um clérigo causasse comoção entre os que seguem seus preceitos religiosos. É semelhante, para o Ocidente, a uma execução pública de um bispo católico romano por um regime protestante teocrático. Causaria tumulto. E era exatamente essa a intenção saudita.

Após grandes compras de armamentos, incluindo uma dos Estados Unidos na ordem de U$ 1.3 bilhões ao final de 2015, os sauditas deixam claro na região que o sectarismo será a lei de agora em diante. Não foi surpresa que Bahrein e outros sunitas ao redor tenham seguido o corte de relações diplomáticas com o Irã.

Da mesma forma em que houve o apoio maciço do Ocidente à invasão de Saddam Hussein ao Irã (1980-1988), desta vez são os sauditas que recebem toda forma de benesses e tolerâncias do Ocidente. Onde estão os truísmos morais quando se apoia uma das ditaduras mais sanguinárias do planeta? É tão descarado o apoio que os próprios Estados Unidos indicaram representantes sauditas à comissão de direitos humanos da ONU. Vejam, não é defender o Irã, ou trabalhar com teorias da conspiração, mas qualquer observada mais digna vai demonstrar que o mundo tolera muito mais abusos sauditas (às vezes até apoiando, como no caso do Iêmen) do que toleram em outros regimes. E os terroristas do 11/9 que eram sauditas? Se fossem sírios, Assad estaria enforcado.

Assim como Assad, que realmente é um carniceiro, mas parece que foi descoberto há uns 4 anos apenas, quando na verdade sua família governa a Síria há décadas. Solução? Armar rebeldes e derrubar o regime. Só que não. O regime não mudou, os rebeldes armados desestabilizaram o país e hoje a Síria é um campo de guerra. Favoreceu a entrada da Rússia e a expansão das ações curdas e de milícias xiitas financiadas pelo Irã.

Voltando aos sauditas, a ideia de demonizar os xiitas é antiga. Mas nunca a oportunidade foi tão clara. Uma pena que o mundo caia tão facilmente em espirais de conflito que se esqueça de valores básicos que julgam defender.

Depois vamos analisar o envolvimento das potências externas…